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Na
romaria da Senhora da Póvoa
1890
Estudos de
Castelo Branco – Dr. Joaquim Manuel Correia (1858-1945)
O
dia estava belo e tudo preparado para a romaria. Todos os casados desse ano, da
aldeia de Ruvina no concelho do Sabugal, estavam já prontos para a partida, uns
a pé, outros a cavalo. A família Calamote resolveu ir de carro (de bois), que
ficara armado na véspera com alvos lençóis de linho, ligados fortemente aos
estadulhos. Faltava só cobri-los com colchas. Sobre isso houvera divergências
em casa. A Brízida queria que se enfeitasse o carro
com uma colcha amarela, as filhas com uma linda colcha bordada a frouxo,
em pano de alvíssimo linho, embora grosseiro, na qual, entre ramos caprichosos,
havia correctas figuras em posições extravagantes.
Venceu
a Brízida, alegando, e com razão, ser mais vistosa a colcha amarela e que,
ainda que se estragasse, havia muitas iguais à venda.
Resolvida
desse modo tal contenda, teve o ganhão ordem de cobrir o carro com a coberta
amarela, logo que nascesse o sol, e de lhe estender dentro os melhores
cobertores para atenuar o choque e a trepidação na marcha.
Eram
sete horas da manhã quando a Domingas e o marido foram saber se já estavam
prontos.
-
Vou já vestir as meninas e encher as
cuncas de merenda, enquanto o ganhão põe os bois no carro e o meu homem enche
a borracha de vinho e albarda a égua nova.
-
Não sabia que tinham uma égua nova!
-
Pois temos, trocámos pela russa e
vamos hoje experimentá-la à Senhora da Póvoa.
-
Quem vai nela?
-
Ele para lá, eu para cá, se vir que
ela é mansa.
-
Daqui a caisnadinha cá volto mai las
cachopas. Até logo.
Seriam
nove horas da manhã, quando o carro do Calamote começou a rodar, puxado pelos
gordos bois vermelhos, que tinha comprado na última feira de Belmonte. Dentro
ia a família da Brízida, isto é, ela e as filhas, porque só a elas se
referia quando falava na sua família. Fora, a servir de pagem, montado na égua
nova, ia o Calamote acompanhando os passos pachorrentos dos nédios ruminantes.
À frente o ganhão, em companhia de outros rapazes e raparigas da aldeia,
entoavam a velha música, ou seja a velha moda da Senhora da Póvoa, para nos
servirmos da expressão própria do povo.
Uma
das mais belas e garridas tocava com garbo um adufe, que herdara já de sua mãe.
E
assim, de povoação em povoação, deram entrada na vila do Sabugal, cujos
habitantes nesse dia se entregavam, segundo antiquíssimo costume, ao simples
entretenimento de ver passar os romeiros.
Pelas
ruas da vila passavam ranchos inúmeros, alegres, cantando ao som dos adufes,
esses velhos instrumentos, que os mouros nos legaram.
Tudo
pára na Praça e as tabernas não comportam tanta gente. Os ranchos dão a vez
uns aos outros. Na cadeia entoa-se também a Senhora da Póvoa. A gente não
cessa de passar e como que se empurra, num delírio de entusiasmo, que os adufes
e pífaros aumentam grandemente.
Era
pela tarde quando o carro do Calamote atravessava a ponte do Sabugal, reflectida
nas espelhadas e cristalinas águas do Côa, juntamente com os muitos romeiros
que passavam cavalgando, produzindo assim, um efeito encantador.
Após
este, outros carros, caprichosamente enfeitados, seguiam repletos de lindas
raparigas. De quando em quando passavam homens descalços, em cumprimento de
promessas e outros que nem palavra respondiam às perguntas que lhes fizessem,
num completo mutismo a que o seu voto os obrigava.
Uns
e outros sobem o Outeiro da ponte, numa alegria comunicativa e desaparecem na
volta da estrada, orlada de silvas e moitas, de carvalhos, vencendo a encosta,
onde hoje (1904) existe um vigoroso pinhal.
Da
Fonte do Piolho vinham várias raparigas, vergando ao peso de grosseiros cântaros,
mas estacavam para verem os romeiros.
Não
tarda que o rancho do Sabugal vá na pista dos outros, a caminho de Vale de
Lobo, e chegue ao vasto terreiro da senhora da Póvoa, nas faldas da Serra
d’Opa.
É
noite. Sente-se um murmúrio ensurdecedor. Mistura de vozes de gente, de
relinchos de cavalos, de sons de pífaros, violas, flautas e cânticos de uma
multidão, gritos de saltimbancos e rufos de tambores e adufes, estalos de
bombas e foguetes, estralejando, ou
como peças de artilharia, ecoando de vale em vale, os estampidos de bombas de
dinamite.
Na
encosta da serra acampam milhares de pessoas que não cabem no largo em volta da
capela, onde os carros ocupam grande espaço, transformados em casas ambulantes
em que dormem famílias inteiras.
Cada
luzeiro que se descobre na serra é prova de que uma família ali se acantonou.
Os
foguetes sobem aos milhares e as filarmónicas percorrem o arraial, onde vai ser
exibido formidável fogo de artifício. Ninguém dorme nem sossega em toda a
noite, tal é o barulho, o movimento, o entusiasmo, por mil modos ali
manifestado.
Nas
barracas dos comediantes reina grande entusiasmo e no circo mulheres novas
exibem ao público ansioso difíceis trabalhos de equitação, dando saltos
sobre cavalos numa corrida vertiginosa, que maravilha o povo, entusiasmado ao
mesmo tempo pelo palhaço, com uns ditos alegres e cabriolas de assustar.
Assiste
ao espectáculo a família Calamote, mas sai no meio porque Brízida não quer
que as filhas continuem a ouvir tolices e obscenidades que alguns rapazes pouco
respeitadores e inconvenientes soltavam a cada instante.
Ouvem-se
realejos perto e muitos harmónios de fole; cantam ao desafio, ao som de violas,
rapazes agigantados e raparigas formosas.
Além
existe um bazar, acolá uma tenda que vende bilhetes à sorte, as rifas, e aqui
e em toda a parte tabernas, botequins e estalagens ou restaurantes improvisados.
Centos de padeiras, vendedores de amêndoas e flores artificiais completam esta
confusão, falando, berrando, e produzindo um murmúrio que mal se pode
descrever e que só de madrugada esmorece.
A
hospedaria está cheia de gente. Amanhece. De todos os lados chega gente a
engrossar a multidão vinda de longes terras.
A
família Calamote, querendo dar fé de tudo, não se deitou, ficando o carro e a
égua confiados ao criado. Só se lembraram deste, quando se sentiram
extenuados, quase incapazes de andar e com precisão de comer.
-
Vamos almoçar – disse ele à mulher
e às filhas. (o almoço era logo pela manhã)
-
Primeiro vamos à Igreja comprar uma
mortalha para esta pequena e dar esmola a Nossa Senhora.
-
Comprar onde?
-
Vendem-se lá mesmo na Igreja e também
medalhas e estampas.
Foi
toda a família à Igreja, onde mal se podia entrar tanta era a
gente
que nela havia.
-
Vede os milagres de Nossa Senhora!
Dizia
o Calamote, apontando com o dedo muitos e variados quadros a óleo que revestiam
as paredes da capela, ao lado de inumeráveis figuras de cera, representando várias
partes do corpo humano, oferecidas por doentes, que foram salvos por milagre.
Ao braços, pernas, pés, cabeças,
mãos, olhos, orelhas, e até narizes de cera, não era fácil contá-los.
Entrou uma rapariga formosa; e
tirando o lenço que lhe cobria a cabeça, pediu a outra que lhe cortasse o
cabelo. Esta, já prevenida com uma tesoura, cortou àquela a mais formosa
cabeleira que possa imaginar-se, loura, comprida, luzidia e volumosa. Que
crueldade! A rapariga, soluçando e toda banhada em lágrimas, depunha na mão
dos mordomos a formosa cabeleira, dizendo:
-
Ofereço esta prenda a Nossa Senhora
da Póvoa.
Veio
um rapaz do lado, perfeito e bem vestido e ofereceu uma moeda pela prenda. Ninguém
lhe deu ouvidos e aquela inesquecível cabeleira foi colocada na parede, atada
com fita azul, num prego comido da ferrugem.
Chorou
o Calamote e a família ao presenciarem tal cena e ele foi comprar a mortalha
que a Ritinha devia levar na procissão.
Ouviram
três missas ao mesmo tempo, o que não admira, porque nesse dia não têm conta
as que ali são celebradas. A custo deixam a igreja onde os mordomos tinham
recebido quantias de mui subido valor e foram almoçar ao carro, almoço de
lavrador, simples, mas substancial e suculento. Presunto, chouriço, almôndegas
de bacalhau, frangos assados e peixe frito, queijo, vinho e pão espanhol era o
menu deste repasto, saboreado sobre o carro, ao som de músicas alegres, de cânticos
variados, toques de cornetas e clarins.
A
Ritinha não almoçou e foi vestir a mortalha que a mãe acabara de comprar.
O céu
toldou-se de nuvens que faziam prever borrasca certa, mas a festa tinha começado
e não tardaria que a procissão saísse. Tudo estava inquieto, porque o trovão
ribombava ao longe, produzindo um medonho estampido, que de vale em vale ia
ecoando de modo aterrador. De quando em quando ouvia-se tão formidável estalo,
que parecia cair em pedaços a abóbada celeste, fundida, desconjuntada.
Estava
terminando um discurso brilhante o notável orador Padre João de Matos (pároco
da aldeia da Ribeira, de onde era natural, brilhante e culto pregador e
principal figura do romance inédito “Celestina” de onde é extraído este
capítulo), e não tardaria que se organizasse a procissão.
Mas
a chuva menos demora teve, caindo mansamente em fios delicados. Num momento
transformou-se o aspecto daquele imenso acampamento, abrindo-se milhares de
guardas-chuva, das mais variadas cores .
A
grande camada de pó do largo do terreiro começou a empastar-se, transformando
tudo em vasto lamaçal, ou lameiro, como noutros pontos do país costuma
dizer-se, parecendo um mar de lama.
Brízida
estava aflita ao lembrar-se de que a filha devia dar volta àquele imenso lamaçal,
incorporada na procissão, percorrendo de joelhos todo o trajecto do costume;
mas tinha de cumprir a promessa.
-
Vamos consultar o padre João para
sabermos se pode mudar a promessa.
Disse
o Calamote, afastando-se, ao passo que elas esperavam dentro do carro, onde
chovia como se não estivesse coberto. Passara mais de meia hora e ele não
trazia a resposta. Por fim apareceu, dizendo que o padre João tinha partido a
pregar noutra freguesia e que um outro padre lhe dissera não poder alterar a
promessa, substituindo-a por outra.
-
Vimos cá outra vez – lembrou
Calamote.
-
Tomara-me eu bem longe daqui! Nesta caí
eu, noutra não será fácil; mas ao feito não se dá remédio; vamos vestir a
mortalha. Oxalá que não sirva ela de verdadeira mortalha, que arranjes aqui a
tua morte – pensou
Brízida,
cujas lágrimas rolavam pelas grossas faces rubicundas.
-
Então, aviem-se, porque a procissão
já começa a sair – disse de novo o Calamote.
-
Mas isto é uma perfeita parvoíce,
uma asneira nunca vista, com o dia que está – comentou Brízida nervosa, não
podendo desabafar por não ser senão
ela a culpada.
-
Tu não sabes que é muita a gente a
prometer e todos querem cumprir?...
Um
grupo de quadrazenhos que ouvira parte da conversa aproximou-se e procurou
dizendo:
-
Poi bel-àhi. Tamém nos otros vamos descalços
de pé e perna amortalhados. Seja o que Deus quiser, mas
não nos podemos precatar mai las cachopês que inda hão-de oferecer as
esmolês e comprar as mortalhas. Olhêi que os guiões já começam a subir,
oubistes?
-
Ai mãe, quem há-de romper com tanta
lama para comprar tantas aquelas...?
-
Vou eu comprar tudo – disse um
velhote, que usava calção de riscas com botões amarelos, jaqueta de gola
levantada,
assim como colete também com botões de metal (latão) e colarinho alto e dobrado. Tinha tirado o chapéu, porque as
cruzes tinham começado a sair da Igreja, e segurava-o contra o peito.
-
Mexe-te homem de Deus ou dos dianhos,
senão aqui quedamos todo o santíximo dia. Anda, senão pego-te pela cisgola da
véstia e vais num rufo aviar tudo – disse a mulher dele, uma velhota alta e
vigorosa, de lenço atado em pontas, que lhe caiam na testa, coro orelhas de
grandes lebres, e com as mãos metidas sob o xaile, que lhe cobriam o seio,
tendo no avental, atado à frente, uns objectos volumosos, nem mais nem menos
que maços de charutos espanhóis.
O
quadrazenho desapareceu, voltando pouco depois.
A
mulher vestiu sobre o fato que trazia um amplo vestido branco, semelhando uma
alva.
-
Tira primeiro os charutos senão hão-de
dizer que andas...
-
Aqui vão siguros, não vêm
revistar-me os guardas, meu chòninhas. E vamos que a música já toca o Hino da
Carta e o pálio já vem a despontar. Não enxergas daí tantos resplandores de
Santos?
-
Bêjo, bêjo. Metemo-nos aqui na
procissão e o calrista que vá com o chapéu para te quitar a chuva. Ah! Pranta
esse ramo, oubiste?
-
Não quero cá mais tafulhos, nem
penduricalhos neste mantéu branco.
Mal
pode descrever-se a imundície que ali existia no terreiro, porque a chuva não
cessava. Homens, mulheres e crianças, cujo número não podia facilmente
calcular-se, abriam sulcos profundos na lama, percorrendo de joelhos largo tempo
o caminho do costume. Era um modo horrível, abominável, de amassar a terra.
Os
devotos seguiam resignados, segurando-se de cada lado a uma pessoa de família,
dando lugar a que a marcha fosse lenta, para maior ser o sacrifício através de
tanta dificuldade. Um quadro que causava riso e compaixão ao mesmo tempo; riso
pela extravagância das figuras, compaixão pelo enorme, incalculável sacrifício,
amargura, que deviam sofrer tantos desgraçados.
A
Ritinha ladeada, amparada, pelo Calamote e pela mãe, ia deslizando sobre a
lama, deixando um sulco luzidio que fazia com a mortalha que lhe envolvia os
joelhos, sulco cujas paredes se uniam atrás dela, sem demora, para ser aberto
de novo por outros infelizes e sacrificados devotos!
Alguns
arrastavam-se de costas em posições caprichosas.
A
cada passo, ataques de nervos e desfalecimentos ocorriam nesse imundo percurso,
terrível via sacra ou rua da amargura.
A
Ritinha não resistiu e foi mister levá-la o pai ao colo, apesar de ter já
dezasseis anos; mas ele era valente e tudo suportava.
O
andor da Senhora da Póvoa andou de mão em mão, dando cada um grossa esmola
para poder levá-lo, o que mais retardava a procissão.
É
grande a confusão, enorme o alarido, os gritos das penitentes e devotos, que
caem, desmaiam, choram, pedem socorro! Mas a procissão continua lentamente
apesar da chuva, do vento e do grande lamaçal.
Parte
do fato ficara no caminho, desfeito, e o resto coberto de lama. Linda, formosa
como poucas naquela idade, a Ritinha vem coberta de lama e não menos os pais e
a irmãzita que chorava também, encharcada, suja como toda a gente.
Os
padres cantavam e a filarmónica tocava, produzindo péssimo efeito; e a grande
vozearia da multidão aumentava cada vez mais aquele murmúrio, misto de cantos
e choros, de imprecações e blasfémias.
Mas
em breve ia debandar a multidão, que se acotovelava e impelia em ondas
temerosas e terríveis nesse pavoroso lodaçal.
-
Para casa, para casa – gritam de vários
lados.
-
Para o carro! – diz o Calamote,
levando nos fortes braços a filha, toda molhada, com o fato a desfazer-se sem
dar acordo de si. A mãe chorava em dueto, passando com dificuldade por entre
aquela muralha de gente.
Chegaram
com dificuldade ao carro, onde os bois coleavam, agitando as campainhas
pendentes, de coleiras enfeitadas que lhes cingiam o volumoso pescoço, onde
cada um levava um saco de trigo de esmola durante a procissão.
Tapando
o melhor que podiam as aberturas do carro, foram todas três mudar de roupas,
enquanto o Calamote dava as ordens para o ganhão por os bois ao carro e levar
os sacos da esmola à Igreja.
-
E a égua? – Perguntou ele.
-
Deve além estar presa – respondeu
serenamente o criado, dirigindo-se para uma tapada,
onde havia centenas de cavalgaduras presas ao muro. Voltou logo,
cabisbaixo, denunciando qualquer desgosto que o amo notou, perguntando-lhe o que
havia.
-
Não está lá, nem viva nem morta.
Essa é boa! Era o que faltava!
-
Ora esta! Não faltava senão isto!
Vai já saber dela, sem demora! Ah! Espera, que nem me lembrava do carro. Tu não
podes ir. Vê se aí está algum rapaz da terra e pergunta por onde passares se
dão notícia de uma égua amarela, frontina, e com o pé direito calçado.
Brízida,
apesar do grande murmúrio do povo, percebeu que se tratava da égua e deitou a
cabeça pela abertura de dois lençóis que uniam a porta ou antes reposteiro
daquela grosseira carruagem, e gritou:
-
Então esse bruto deixou abalar a égua?
Pois há-de pagá-la com língua de palmo.
-
Eu não a deixei abalar e nem podia
guardar os bois e a égua ao mesmo tempo e ainda por riba o que está no carro.
-
Se não aparecer hás-de pagá-la, tem
a certeza disso, grande maluco.
O
criado, humilde, sem responder às ameaças e insultos, desapareceu e só
passada uma hora, ou mais ainda, voltou, dizendo que lhe tinham dado inculcas da
égua, uns da Meimoa, que a viram nas mãos de um cigano já velhote.
-
Vai ter com o administrador, que ainda
agora ia para a hospedaria, e ele que dê providências – disse furiosa Brízida
ao marido.
-
Põe primeiro, e já, os bois ao
carro, que são horas e a chuva é cada vez mais abundante.
-
E o meu amo?
-
Já vem.
O
criado obedeceu: mas o Calamote não aparecia.
-
Vai chamar o teu amo.
-
Onde?
-
Procura-o por essa feira, vai à
hospedaria e dá por ai uma volta.
O
criado encostou a aguilhada às chaves do Formoso, nome de um dos bois, e
desapareceu.
Deu
várias voltas ao arraial, foi à hospedaria, mas do Calamote não havia notícia,
procurando-o em toda a parte. Depois dirigiu-se ao sítio onde deixara o carro,
e esta já não estava ali também. Correu pelo caminho de Vale de Lobo (caminho
que sai do santuário, passa pelo Peão, e entra em Vale de Lobo pelo sítio
denominado Barreira) e viu-o a entrar na povoação.
Quando
chegou onde o carro estava, o suor corria-lhe pela fronte e mal podia falar.
-
Que demora foi essa?
-
A procurá-lo.
-
Que linda coisa! Tu a procurares o teu
amo, o teu amo a procurar o administrador e agora o Rito a procurar o senhor meu
criado, porque o teu amo foi para as Aranhas com um ofício do senhor
Administrador e foi a pé até à Meimoa, porque não achou besta. Parece tudo
isto um sonho. Diz ao Ramos que obrigado por ter vindo com os bois e dá-lhe uma
pinga da borracha.
Ouvia-se
ainda o estalar dos foguetes e a filarmónica tocando, mas os caminhos iam
cheios de gente, cantando alegremente.
Reapareceu
o sol, iluminando as encostas dos montes e outeiros, onde se destacavam as bouças
cuja verdura de variadas cores entre os matos maninhos davam um desusado aspecto
a todos os montes que circundavam a vasta bacia de Vale de Lobo, coberta de
oliveiras e figueiras, que enfeitavam riquíssimas hortas, férteis
propriedades, veigas mimosas e extensas, regadas pelas frescas e abundantes águas
da ribeira que vem de Santo Estêvão.
Passavam
ranchos cavalgando e ouviam-se os adufes doutros não distantes, harmónios,
realejos, pífaros, violas e guitarras.
-
Tanta alegria e só nós tão tristes
- dizia Brízida às filhas –
Toca esses bois, homem, que assim não chegamos hoje a casa.
O
criado picou os bois com a comprida aguilhada, fazendo-os correr. A Ritinha
bateu com a cabeça no estadulho, por causa dos solavancos, e à irmã ia
sucedendo igual desastre.
-
Vai mais devagar, não vês que fazes
cair as meninas, selvagem!
O
criado gritou aos bois:
-
Oh! Oh! Bourisco, sê trás!
-
Não sabe uma pessoa o que há-de
fazer. Ora que vamos depressa...ora que vamos devagar...
-
Faz o que te dizem e não voltes
troco, ouviste?
-
Lá por isso não devemos ter mais
arrefuras, seja feita a sua vontade.
Seriam
cinco horas da tarde, quando o carro chegou ao castanheiro das merendas. O sol
tinha enxugado a relva com os seus raios ardentíssimos, e sob os castanheiros
havia muita gente comendo e bebendo, e um taberneiro gritava:
-
Quem o quer bom e barato, puro vinho
do Teixoso a trinta réis o cortilho!
Os
ranchos passavam em frente da taberna improvisada ao pé da estrada, mas a
pequena distância outro taberneiro oferecia vinho bom, a vintém.
-
Quem o quer, quem o quer! Este é bebê-lo
e gritar por mais!
O
carro rodava sempre e a curta distância dele, muitos outros seguiam também.
Era
grande a vozearia, os cânticos ecoavam de toda a parte e os ranchos passavam
sem cessar. Homens com fitas, ramos e rosas artificiais enfeitavam os chapéus,
mostravam garbosos cavalos, e mulheres formosas e bem vestidas cingiam aqueles
pela cintura. Os caminhos e as estradas iam cheios.
Quando
avistaram a ponte do Sabugal o sol ia a sumir-se, lançando os derradeiros raios
nas ameias da torre de menagem das cinco quinas onde as pombas pousavam
tranquilamente.
Ladeando
a estrada e nas encostas havia imensa gente esperando os romeiros que vinham em
grupos imensos.
Não
faltavam soldados, nem rapazes.
As
famílias da antiga vila descansavam sentadas nos rochedos sobranceiros, e os
magistrados e escrivães estavam junto à ermida da Senhora dos Aflitos.
Passou
um grupo de espanholas, gentis, belas, elegantes, e eles num requinte de amável
cortesia ergueram-se, saudando-as, correspondendo elas com um gracioso movimento
de cabeça. Atrás iam muitos espanhóis a pé, acompanhando guapas moças, que
caminhavam com aquela elegância que tanto as caracteriza – o salero.
Os
janotas deram vivas às espanholas, que sorrindo de contentamento, agradeciam.
Um espanhol de cinto de couro, calções pretos, desviando-se da estrada, subiu
a um rochedo e gritou:
-
Vivan los portuguesitos!...
Entretanto,
em frente da ermida da Senhora dos Aflitos organizava-se um baile, ao som duma
viola e dum pífaro.
Iam
passando muitos carros, costeando o outeiro da antiga vila, e, em direcção à
fonte, passava também o da família Calamote.
-
É preciso dar água aos boi – disse
o ganhão.
-
Eu também a quero – disseram ao
mesmo tempo as duas irmãs.
-
Toma este pucarinho que lá comprei na
romaria e trá-lo cheio de água.
Começou
a escurecer no terreiro da fonte onde já só passavam raras mulheres com cântaros.
A alegria de há pouco, o entusiasmo que desde a véspera presenciaram por toda
a parte, com as arrelias, a fadiga, o silêncio, e a solidão e o sono,
converteram-se agora numa tristeza indiscritível. O Calamote sem aparecer, os
outros ranchos tinham-se adiantado, e elas ali, sem conhecerem ninguém e ainda
tão longe de casa.
-
Ficamos aqui, minha mãe; alguém nos
há-de receber.
-
Olha, filha, isto são vilas, não são
como as aldeias, onde se recebe toda a gente, seja a que hora for.
-
Mas eu tenho medo de ir a estas horas,
só com o palerma do ganhão.
-
Paga-se a um homem que vá connosco.
Mas, como há-de ser isso? Não podemos aqui ficar sós, para o ganhão ir
procurar alguém.
-
Chama-se aquele homem que nos ensine.
-
Ó homem! Faz favor! – gritou Brízida.
-
Quem me chama? – respondeu um
desconhecido.
-
Sou eu, que lhe pedia um favor: de me
dizer se haverá por ali alguém que nos queira acompanhar até à nossa terra.
-
É muito longe?
-
Obra de quatro léguas - disse o ganhão,
que vinha de dar água aos bois.
-
Vou eu mesmo, mas é preciso ir ainda
dar parte à minha mulher. Mas não demoro.
Em
menos de um quarto de hora regressava o homem, acompanhado da mulher, dizendo
que ficassem, que não tinha jeito partirem àquela hora, pois não estavam em
terras de mouros e pareciam pessoas de bem.
A
mulher, com o xaile traçado e gesticulando sempre, deu ordens ao criado que
fosse a de rabo dela para o seu curral.
-
Não, não, muito obrigada, isso era
muito incómodo para a senhora – disse Brízida hipocritamente, por cerimónia.
A
filha tocara-lhe no braço para se calar e como a mulher insistisse, Brízida
aceitou, descendo todas três do carro.
-
Façam favor de vir comigo e o mê
home já vai ensinar a casa ao criado. Venham que é de boa mente. O que eu
sinto é não termos casa jeitosa...
No
dia seguinte madrugaram e às nove horas deram entrada em casa, que ficara
entregue à sua comadre e vizinha Ana Luzia.
O
Calamote só chegou alta noite, mas da égua não houve notícia alguma.
Constou
muito depois que fora vendida por um quadrazenho a um cigano e que, depois de vários
donos, fora morrer à feira de Salamanca na praça de touros. Ao certo, ninguém
sabia.
-
Deixaras tu estar a velha, que ainda
fazia bom serviço, escusávamos agora deste prejuízo – dizia Brízida
furiosa, não perdendo ocasião de censurar o marido, o que além de crueldade,
era inútil, porque chegara estropiado, não obstante ter feito parte da jornada
a cavalo.
Souberam
os ciganos do caso e não perderam ensejo de fazer novo negócio.
Passados
dias, vinham-lhe oferecer outra égua, que, no dizer deles, não era inferior à
roubada. Agradeceu-lhes o Calamote ingenuamente e não hesitou em fazer logo tão
fácil quão ridícula transacção.
Mal
se despediram os ciganos, o Calamote levou a égua à pastagem ou lameiro, como
ali se diz, e foi, muito admirado, contar à mulher que a égua era tão mansa e
tinha tal instinto que adivinhava onde era o lameiro., porque mal chegou ao
portal, saltou logo para dentro.
-
Queira Deus, queira, não tenhamos
nova emburricadela – disse a mulher.
-
Não estejas com maus agouros.
-
Isso não são maus agouros, é a prática
que me diz, que negócios de ciganos, nunca foram, nem são bons. E para que a
levaste para o lameiro?
-
Para ver se come, se pasta bem.
-
Não vias que estava para chover? O
melhor, será ir ver dela, não leve o mesmo sumiço da outra.
-
Manda-se o rapaz buscá-la.
-
Ó Bonifácio! Vai buscar a égua e as
bezerras ao lameiro dos pelames, ouviste?
-
Ouvi, sim, senhor, lá vou já,
deixe-me partir um miguelho de pão que já tenho gana de comer – disse o
Bonifácio, segurando com a mão esquerda um pão centeio, que partiu com uma
navalha espanhola, muito em uso nas terras donde ele era.
Neste
momento chegava à porta o padre Manuel, com Celestina.
-
Façam favor de entrar – gritou
Calamote de dentro, conhecendo a voz do compadre que perguntava ao criado se
estavam em casa.
O
padre Manuel, de casaco comprido, volta e chapéu mole de pelo de seda, entrou
com Celestina.
-
Vimos saber se a Ritinha está melhor;
constou-nos que estava doente.
-
Tem estado adoentada desde que fomos
à Senhora da Póvoa, por causa da lama que lá havia.
Celestina
e Brízida cumprimentaram-se, beijando-se, e foram para a sala grande, ouvindo a
Ritinha tossir convulsamente.
-
Como está ela, coitadinha! Mas se
Deus quiser não há-de ser nada.
Entraram
para a alcova que dava para a sala, abrindo a porta de vidraça.
A
doente estava ainda tossindo, as faces escaldavam-lhe, e se não enganava aquela
cor afogueada e a opressão do peito, o seu estado inspirava cuidado.
-
Então que foi isso, Ritinha? Constipação?
-
Não sei. E a menina Celestina tem
passado bem?
-
Agora tenho tido bastante saúde, graças
a Deus. Só ontem soubemos que a menina estava doente, pelo Bonifácio que
encontrámos ao fundo do povo e nos contou terem ido à Senhora da Póvoa e ter
lá chovido muito.
-
Nem a menina calcula! Olhe (mas
chegue-se para aqui), quando chegámos lá, assistimos aos fogos de artifício,
do que gostei tanto que nem faz ideia, mas era uma noite perdida, porque o
barulho não cessou: uns a cantar, outros a tocar, não se ouvia senão uma
toada como quando está trovejando. Vimos
bazares, botequins, fomos ver os cavalinhos e comédias. Eu não gostei daquelas
coisas e fomos deitar-nos sobre a enxerga do carro; mas fomos dormir!... As
pequenas sim, para elas não houve barulho capaz de lhes tirar o sono, mas nós
nem pregámos olho.
-
Mas deixemos isso, vamos contar como
foi que esta menina se achacou e se acha ainda queixosa.
-
Veio uma trovoada, caiu uma chuva
miudinha...Ora se chovesse muito não havia perigo; mas foi uma chuva miudinha
que amassou todo o pó do terreiro, a ponto de não se poder passar. Mas nós tínhamos
prometido ir à Senhora da Póvoa, quando o meu homem esteve doente, e não se
podia faltar à Senhora que fez o milagre. A pequena devia ir amortalhada...
-
Que horror! – gritou o padre Manuel.
-
Estás-lhe a contar também? – disse
Brízida, pondo a cabeça para fora da alcova e dando um passo para fora.
-
Estou, estou.
-
Não faz ideia, senhor compadre. Mas,
como ia contando, o meu homem esteve entre a vida e a morte e só a Senhora da Póvoa
é que o salvou. Uns, que era ética, outros que era a espinhela caída, uns
isto, outros aquilo...e nada valia. Prometemos à Senhora da Póvoa uma boa
esmola, conforme as nossas posses, veio depois o médico, receitou e torceu o
nariz, mas a receita ainda lá está.
-
Ai menina, já tínhamos desacorsoado.
Olhe que só galinhas matei mais de dez, fora os frangãos e perdizes que nos
traziam! Faça ideia!
-
Mas onde ias tu Brízida? Já sei. A
lama era muita e a pequena tinha que ir de joelhos. Amortalhada, a acompanhar a
procissão. Muitas mulheres foram levadas em braços, outras caíam, outras
tinham vágados. E os trovões e a chuva sem desaporem sobre a gente, veja lá
como havia de ficar.
-
Teve o pai de a trazer ao colo e lá
ficou a penitência por cumprir.
-
Não, tolinha – gritou o Calamote
– aqui o senhor compadre diz que ficou cumprida e cumprida até demais, pois
Deus não quer o impossível e aquilo era demais.
-
Que dizes tu? – perguntou ela saindo
da alcova.
-
Que ficou cumprida a penitência.
-
Pois é sério? Sr. Compadre!
-
Se é sério? Então com coisas destas
também se graceja? Se eu lá estivesse não a deixava fazer aquela tolice, que
podia trazer-lhe a morte. Bem sabe que ninguém pode matar-se por suas mãos.
-
Diz bem senhor compadre. E olhe que eu
sempre pensei assim e ainda perguntei a um padre se podia mudar a promessa, mas
ele disse que não.
-
A Igreja preveniu essas e outras
coisas.
-
Cá me parecia!...Depois, uma sobre as
outras. Roubaram-nos a égua!
-
Essa é fácil de achar por causa da
cor.
-
Já não é a ruça. Então o compadre
não sabia que a troquei?
-
Ignorava-o completamente
-
Pois era uma bonita égua a que agora
tínhamos. De modos que andei de terra em terra, e não a topei mais.
-
É verdade – confirmou Brízida,
aproximando-se do marido, que estava debruçado sobre uma grande mesa de
castanho.
-
Então agora está sem nenhuma, mas a
minha chega para ambos; é mandá-la buscar quando quiser.
-
Está enganado, já tenho outra, para
melhor, como o compadre e senhor vai ver, pois ela não tarda a vir do lameiro.
Comprei-a ainda hoje ao mesmo com quem troquei a outra.
-
O pior é se lha roubam também –
voltou o padre.
Na
varanda riam os rapazes e a pequena Clementina.
-
Que riso é aquele da pequena? –
perguntou o Calamote.
-
Ó Clementina, porque estás a rir?
-
É que o Bonifácio traz as calças,
que o mano lhe deu, todas pintadas de preto.
-
Ele foi buscar a égua?
-
Fui sim, senhor – disse Bonifácio
entrando, de chapéu na mão e coçando a cabeça – mas o que o senhor não
sabe é que eu ia jurar que a égua que mercou é a ruça que cá tinha.
-
Não pode ser...
-
Isso parece-lhe a bómecê. Prante
aqui os olhos nas pantalonas que o menino me deu.
-
Essas não têm nada a ver para o caso
– disse o Calamote, olhando para o compadre, que sorria, e para a mulher que
mordia o beiço.
-
Tem, tem, home, e mais pró quê é
assomar-se ali para o curral.
-
Venha daí, compadre, que hei-de
desenganar este basbaque.
Os
dois, seguidos de Bonifácio, subiram em direcção à varanda. Os dois rapazes
andavam no curral a escorraçar a égua. Um deles, vendo o criado, fugiu
gritando:
-
Vai chamar o tintureiro espanhol, que
a égua já está outra vez branquinha como uma estriga.
Os
outros rapazes deram uma gargalhada e o Calamote tornou-se vermelho qual
malagueta, ao ver que a égua se tornara branca.
-
Lá que os nomes se pintavam, sabia
eu, que já tive um amo, branco cumá nossa cabra pomba, que se pintava para
parecer moço...Mas as éguas!... – disse o criado.
-
Nessa qualquer caía, meu amigo!
-
É realmente uma grande partida.
-
Os ciganos são capazes de tudo, pode
crer. Chegam a por orelhas aos burros que as não têm...
-
Mas só aos burros é que impingem éguas
pintadas – diz Brízida, que ouviu o fim da frase.
-
Isso não, comadre; nem tanto assim,
tenha paciência.
-
Como não?
-
Outros mais finos têm caído, isto
sem ofensa para o compadre, que não tem nada de tolo. Já aconteceu o mesmo a
um meu colega.
-
Bem haja, senhor compadre.
-
Que vergonha, que vergonha! Nunca se
viu coisa assim! – gritou Brízida colérica.
A
notícia correu e deu lugar a que muitos curiosos fossem de propósito ver a égua
pintada.
A
mulher, que via nisso uma grande afronta ao seu homem, barafustava e tornou-se
insuportável, ao mesmo tempo que ele andava corrido, vexado, e cada vez mais
apreensivo, gritando contra a corja de ciganos, raça maldita de ladrões, e
contra o governo porque não os expulsava de Portugal, como fez um rei à praga
dos judeus.
-
Foi o maior erro que por cá se tem
feito.
-
O compadre que o diz, é porque o
sabe, mas eu pensava que inté a tiro se deviam correr.
-
Não,
compadre; todos somos irmãos e não têm menos direito à vida do que nós.
Mas o tal rei expulsou os judeus e fez mal, porque perdemos com isso.
-
Queira então desculpar, mas eu ouvi
um dia ler ao Artur, num livro velho, que os judeus foram queimados e
perseguidos sem dó por um rei que era muito religioso.
-
Fanático, fanático, que é coisa
diferente.
-
E os ciganos?
-
Esses são capazes de enganar meio
mundo, com palavreados mentirosos, e deviam ser castigados ou postos fora do país.
Américo Valente