Vale da Senhora da Póvoa

Vale de Lobo

Alcunhas - Lendas - Adágios

Alcunhas

 

Etnografia da Beira – Jaime Lopes Dias, Volume III, página 209

Restos da insociabilidade primitiva, consequência da desigualdade de privilégios e honras, em todos os tempos e ainda hoje se assinalam rivalidades, ódios e despeitos de raças, de povos, e sobretudo de pequenos núcleos de povoamento.

De tais desinteligências e disputas, e das brigas de pessoas e de localidades deviam nascer como meio de combate (às vezes não de pequeno efeito) os apodos grotescos, o ridículo, as alcunhas, tão bem aproveitadas na parte referente a pessoas, por escritores na idade média em milhares de sátiras.

Procurando coleccionar alcunhas referentes às povoações de aquém da serra até aos confins do Zêzere, consegui recolher os que seguem:

Não vejam os meus leitores, e muito menos os moradores das povoações que aqui vão referidas qualquer intenção depreciativa. Regista-se tudo o que de bom ou de mau corre, porque tal é a essência e a base da Etnografia.

Localidade Alcunha Localidade Alcunha
Abitureira Colhereiros Ninho Gatunos
Alcafozes Esturrados Oleiros Papa couves
Alcains Unhas negras Orjais Barrigudos
Aldeia do Bispo Chendros Pedrógão de S. Pedro Garranos
Aldeia de João Pires Cucos Pena Lobo Falupos
Aldeia do Mato (V.Formoso) Pardinos Penamacor Paliteiros
Aldeia Nova do Cabo Cravinas Penamacor Gravatinhas
Alpedrinha Manilhas Penedos Arreganhados
Alpedrinha Gravatinhas Penha Garcia Galinheiros
Amieira Samarreiros Peraboa Morcegos
Aranhas Aranhiços Póvoa Carreiros
Bendada Carrapatos Proença-a-Nova Côdeas
Belmonte Lagarteiros Quadrazais Ladrões
Belmonte Caldeireiros Quartos Palradores
Benquerença Calhameiros Rosmaninhal Chamuscados
Carvalhal (Belmonte) Verguinhas S. Vicente Chamiceiros
Casal Batatas Salvador Barrentos
Castelo Branco - arredores Sardanascas Salvaterra do Extremo Ventaneiros
Covilhã Calmões Segura Ata-palhas
Castelo Novo Alfacinhas Sendinho Tinge-rodilhas
Eira do Miguel Migalheiros Soalheira Mafras
Escalos Fura-balsas Sobral Mata-lobos
Felgueiras Vinhateiros Sobreira Formosa Cascões
Fundão  Cabeças de burro Souto da Casa Cabreiros
Gonçalo Vergueiros Sortelha Lagartixos
Idanha-a-Nova Alarves Santo Estêvão (Sabugal) Carvoeiros
Idanha-a-Velha Eibedos Teixoso Bestas
Inguias Vergas Tinalhas Semagreiros
Ladoeiro Eibedos Urraca Sardões
Lardosa Bogalhões Vale de Lobo (Vale Sª.Póvoa) Altaricos
Lengra Passeadores Vale da Torre Beatos em cortiça
Louriçal do Campo Cucos Valverdinho Traifouras
Lousa Pelados Zebreira Alcatruzes
Medelim Bailaricos Monsanto Lagarteiros
Malcata Carvoeiros Meimão Trepa-serras
Meimoa Barrigudos Malpique Mal-talhados
 

 

  Lendas

    As Mouras da Serra D’Opa

 Etnografia da Beira – Dr. Jaime Lopes Dias, Volume I, página 65

Não há cantinho do velho Portugal que não tenha, em velhos castelos roqueiros, em fragas inacessíveis ou em ruínas de passado distante, lindas mouras de cabelos de ouro, de formas esbeltas e de superior encanto, presas por eternos desígnios a uma eternidade infinita. E é talvez por isso que, também no distrito de castelo Branco, entre outros lugares, no sítio da Penha, no cimo da Serra d’Opa (Vale de Lobo) , lá vivem elas, lindas entre as mais lindas, escondidas entre enormes penedias, para, uma só vez em cada ano, di-lo o povo, na noite de S. João,  saírem a estender preciosas meadas de ouro que guardam e só entregarão a quem, naquela noite, à meia noite, apanhar a semente do feto real. E como os fetos abundam próximo, e como a vida é difícil para todos os que ganham com o suor do seu rosto, muitos, de geração em geração, têm subido, encosta acima, até ao cume da serra, a estender pelo chão lenços e toalhas, na ânsia de acertar com a planta que deixará cair o precioso fruto.

E usando e empregando superstições várias, chamando mesmo a cruz em seu auxílio (alguns têm atado às quatro pontas dos lenços moedas de cruzado) muitos, todos lá têm ido e de lá têm vindo sem o tesouro, desiludidos, e, mais que desiludidos, amedrontados e confundidos.

É que, ao cair da meia noite, sempre e inalteravelmente, ruge formidável tempestade que ameaça subverter a própria terra! É que, àquela hora e naquele local, os trovões são tantos e de tal ordem que o mais animoso sucumbe! E assim, através das gerações, todos os que têm pretendido quebrar o encanto, recolher as riquezas e libertar as eternas e lindas sacrificadas, têm, na fuga, achado demasiado comprido, na noite de S. João, o caminho da Serra! E por isso, lá entre os penhascos, junto de enormes penedias, continuam encantadas, lindas, muito lindas mouras, de tranças de ouro, a guardar, pelos séculos dos séculos, grandes e enormes riquezas.

As lendas propagaram-se na Idade Média, com o florescimento da Alquimia. A Alquimia é uma ciência esotérica que só é alcançada pelos Iluminados. Então, com o fim de manterem secretos os seus conhecimentos, comunicavam-se entre si através de lendas e histórias, as quais estavam repletas de palavras-chave, só pelos alquimistas entendidas. Mas, todo o caminho é árduo e, para se atingir a iluminação, terá de se buscar primeiro o conhecimento.

Assim, podemos interpretar esta lenda, e tantas outras semelhantes, da seguinte forma:

Nesta região dá-se aos dólmenes o nome de Mouras, Orcas, Mamôas, Arcas.

Assim, as Mouras de que fala a lenda, não são mulheres árabes com cabelos de ouro.

O Ouro representa alquimicamente, a LUZ, a SABEDORIA, o CONHECIMENTO, a PEDRA FILOSOFAL.

O feto real representa a iniciação, a semente da busca.

Assim, temos.

As Mouras da Serra D’Opa (e há lá algumas) guardam segredos ancestrais esperando ser redescobertos.

Uma vez descobertos esses segredos, atinge-se a Iluminação.

  A BOA HORA E A MÁ HORA

 Etnografia da Beira – Dr. Jaime Lopes Dias, Volume X, página 68

 Entre os muitos medos e superstições correntes entre o nosso povo, este da Boa Hora e da Má Hora é dos mais considerados, respeitados e temidos entre os povos da Beira Baixa. Apresentam-se como fantasmas.

A primeira, vestida de branco, dá a certeza, aos que têm a honra de a ver, que estão a bem com Deus. São dos que Deus escolheu para si. A segunda, a Má Hora, vestida de negro, é indício e anúncio de maldição ou castigo.

Quando esta está para aparecer, geralmente de noite, à sua aproximação, põem-se os cabelos das pessoas e dos animais em pé.

Isto não é superstição. É uma realidade. Estes fenómenos já estão a ser estudados pela Parapsicologia, Ovniologia e mesmo pela ciência dita oficial. O fenómeno OVNI já está sendo estudado e já se conhecem racionalmente estes casos.

Um destes casos, passado nos arredores de Penamacor com um Guarda Fiscal, que se viu defrontado com uma imagem holográfica (tal como nas aparições da Virgem), relatou aos investigadores a sua experiência. Essa experiência do dito guarda fiscal, está de acordo com o que acima foi descrito pelo Dr. Jaime e de acordo com as histórias que ouvi contar em Vale de Lobo, quando era pequeno.

No entanto, foi em Castelo Novo que descobri a natureza destes fenómenos, que se passam vulgarmente na Serra da Guardunha. Foi aí que conheci um investigador desses fenómenos, e me levantou o véu para o seu entendimento. Estes fenómenos (só são fenómenos porque ultrapassam o nosso conhecimento) sempre aconteceram em todo o mundo. A Bíblia documenta muitos casos destes.

Mas não vou alongar-me mais aqui, porque este não é lugar próprio para o fazer.

   Adágios populares - Vale de Lobo

 A água de Abril é água de cuco, Molha quem está enxuto

  Em Abril queima a velha o carro e o carril, e uma camba que deixou ainda em Maio a queimou

  Quinta feira da Ascensão, seca a raiz ao pão

  Em Junho anda a fouce no punho

  Água de S. João tira vinho e azeite e não dá pão

  Pelo S. Tiago vai à vinha e prova o bago

  Pelo S. Lourenço, vai à vinha e enche o lenço

  Quem se ajusta pelo S. Miguel não é senhor de si quando quer

  Setembro ou seca as fontes ou leva açudes e pontes

Pelo S. Martinho prova o teu vinho, larga o soito e mata o porquinho

  Dos Santos ao Natal, é Inverno natural

  Pelo Santo André, agarra o porco pelo pé.

  Geada na lama, chuva na cama

  A vinha, velho a põe, velho a vindima

  Não peças a quem pediu, não sirvas a quem serviu

Não compres a quem comprou, porque sabe o que lhe custou

  Lavrador de uma junta, espalha mais do que ajunta

 

 

Américo Valente - Pesquisas

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