
![]()
(Professor)
Educador
e benemérito
8/9/1864
– 5/2/1948
|
Único
varão na descendência de seus pais, teve duas irmãs: Ana Joaquina e Maria
Joaquina.
António
Lopes Dias, seu pai, pessoa muito sensata e amigo da instrução, viu que os
seus rendimentos, necessários à sustentação da família, não chegavam para
levar o filho a um curso superior, e por isso limitou as suas ambições a,
depois de ter obtido distinção no exame de instrução elementar, entregá-lo,
para habilitação ao Magistério Primário ao professor José Freire de Novais,
o professor Freire, como era conhecido, homem de larga cultura que ao tempo
criara em Benquerença um centro de estudos e preparação de professores,
frequentado por dezenas de alunos, e de onde efectivamente saiu grande parte do
professorado de ensino primário que, até há pouco, preencheu a maioria das
escolas dos concelhos limítrofes. (foi de 10 libras o preço ajustado entre Antónia
Lopes Dias e o professor Freire pela preparação para o exame).
José
Lopes Dias, dado apto para exame, prestou as suas provas, apenas com 18 anos de
idade, em Castelo Branco, onde obteve a classificação de “suficiente”. Brioso,
não se conformou com este resultado e requereu novas provas, onde obteve a
classificação de “bom”.
Vaga
a escola de Vale de Lobo, freguesia que dista da Benquerença sete quilómetros,
requereu-a e nela foi provido interinamente, em Maio de 1883.
Todas
as manhãs escaldantes de Verão ou brumosas e frias de Inverno, lá seguia a pé,
por velhos caminhos, acompanhado da merenda, a dar a escola, até que
definitivamente se fixou, estabelecendo casa e família.
Muito
amigo de suas irmãs e previdente, resolveu habilitar para o Magistério Ana
Joaquina, a mais velha e com melhores aptidões.
Assim
poderiam as duas amparar-se e acompanhar-se na vida. E
de facto, Ana Joaquina fez o seu exame e foi colocada na escola feminina da
freguesia de Quadrazais, do concelho de Sabugal, onde viveu muitos anos e
conquistou a estima dos quadrazenhos, que ainda, muito tempo passado depois de
ter deixado a escola, vinham visitá-la propositadamente à Benquerença onde
fora colocada.
José
Lopes Dias casou em Vale de Lobo, em primeiras núpcias, em 1889, com Angélica
Mendes Barreiros, filha de António Francisco Barreiros e de Maria Mendes, e
deste matrimónio houve três filhos: Jaime, que nasceu a 25 de Outubro de 1890,
José a 28 de Julho de 1892 e António a 23 de Maio de 1895. Com 25 anos
incompletos sua dedicada e nunca olvidada esposa, como deixou escrito, faleceu
no dia 24 de Junho de 1895, tendo durado o matrimónio menos de seis anos. O
filho mais velho reservou-o então para seu companheiro, como sempre foi hora a
hora, minuto a minuto, ambos inseparáveis na dor que os pungia, e os mais
novos, confiou-os à companhia e guarda da querida e saudosa madrinha Ana
Joaquina, tendo falecido: José o mais velho, com cinco anos de idade, em 28 de
Agosto de 1897, e António, o mais novo, em 12 de Março de 1896, com nove meses
incompletos, ambos sepultados no cemitério de Quadrazais. Após
dois anos e meio de viuvez, contraiu segundas núpcias, em 26 de Janeiro de
1898, com D. Carlota Leitão Barreiros, filha de Joaquim Vaz e de Cândida
Leitoa, prima da primeira esposa, ambas netas de Joaquim Vaz e Isabel Mendes. Do
segundo matrimónio deixou quatro filhos: José que nasceu a 5 de Maio de 1900,
António a 1 de Março de 1903, Joaquim a 22 de Agosto de 1904, e Victor Manuel
a 4 de Julho de 1910. Durou
este casamento até ao falecimento de D. Carlota, a 2 de Agosto de 1941,
quarenta e três anos e meio, decorridos na melhor amizade e harmonia. Observador
arguto, muito amigo do único filho que lhe restava e não menos de sua nova
esposa, planeou a forma de estabelecer e cimentar a amizade entre todos, fazendo
desaparecer, sensata e inteligentemente, do seu lar os nomes de madrasta e
enteado que, em verdade, nunca foram usados entre mim e D. Carlota, a quem
tratei sempre como mãe e ela igualmente como filho, e a quem aqui rendo o
preito de minha profunda gratidão e saudade.
E
para que entre os irmãos perdurasse e se cultivasse mais amizade e maior
afecto, eu devia ser, e fui, o padrinho de todos.
Não
deve deixar de ser recordada como de boa justiça a aquiescência e aprazimento
da mãe Carlota. Sofrendo
embora de reumatismo gotoso que durante anos o mortificou, meu pai, pôde
atingir, mercê da sua rija compleição, os 83 anos de idade, falecendo na sua
casa de Vale de Lobo pelas 21 horas e trinta minutos do dia 5 de Fevereiro de
1948, uma quinta feira.
A
sua descendência era constituída na referida data, além dos cinco filhos já
referidos, por nove netos: António de Andrade Pissarra Lopes Dias
Maria
de Lourdes de Andrade Pissarra Lopes Dias
Jaime
de Andrade Pissarra Lopes Dias
Maria
Emília de Andrade Pissarra Lopes Dias
José
Xavier Lopes Dias
António
Manuel Xavier Lopes Dias
José
de Oliveira Lopes Dias
António
de Oliveira Lopes Dias
Pedro
de Oliveira Lopes Dias
E
sete bisnetos: Maria Paula Matos Gouveia Lopes DiasMaria Cecília Matos Gouveia Lopes Dias
Virgínia
Maria Matos Gouveia Lopes Dias
Maria
Dulce Lopes Dias Manarte
Maria
Elisabeth Lopes Dias Manarte
José
Lopes Dias Manarte
Maria
Inês Lopes Dias Manarte Dotado de verdadeiro espírito de sacrifício, tinha o mais acendrado culto pela família. Seguia e repetia bastas vezes aos filhos, velhas máximas populares que encerravam grandes lições, fruto de larga experiência.
A
parábola das varas, que juntas resistiam ao mais forte e divididas qualquer as
quebrava, era bem conhecida de seus filhos e de todos os seus alunos!
No
dia 8 de Setembro de 1934, quando completou 70 anos de idade, leu aos filhos e
amigos presentes, o seguinte brinde:
“Há
tempos disse-me o Jaime que para festejar o meu septuagésimo aniversário natalício,
a minha família se juntaria toda este ano, nesta casa.
Foi-me
agradável a notícia e fiquei na expectativa.
Realiza-se
o projecto. Pois bem, eu quero lembrar aqui que reputo a manifestação espontânea
dele, e de todos os meus filhos, legítima, bem como legítimo julgo o nosso
orgulho, porque de um humilde professor primário saíram cinco doutores, até
hoje, caso único na nossa Terra!
Isto
dizem amigos e estranhos que nos conhecem.
Esta
manifestação com que me quisestes honrar é grata para todos nós e decerto
cairá bem aos olhos da sociedade porque, se materialmente foi muito o que este
casal fez, não foi menor o meu esforço e trabalho como professor primário.
Muitos
alunos por esse país fora se têm reunido e levado a efeito festas de gratidão
aos seus antigos professores! O que aqui se passa é mais simples mas igualmente
significativo.
Permito-me
falar de mim como Professor.
Depois
de vos habilitar para o primeiro exame, obriguei-me a estudar lições de alemão,
francês e latim, para vos ajudar, e o certo é que fiquei sabendo declinar os
casos simples e conjugar os verbos regulares. Gramática, dicionários, tudo
desfolhava para vos transmitir alguns conhecimentos secundários.
De
forma que, se como pai gastei centenas de contos para preparar o vosso futuro,
como professor fiz também alguns sacrifícios.
Faço
votos para que todos sigais o meu exemplo junto de vossos filhos.
Creio
que se a vossa carreira foi brilhante eu concorri para ela e gozo agora da vossa
glória por nela ter o meu quinhão.
Acho-me
bem com a minha consciência de Pai e vosso Mestre e só duas coisas agora
desejava que Deus me concedesse: ver ultimada a formatura do Victor e saúde e
alguns anos de vida, porque de resto nada mais ambiciono.
Temos
paz e o suficiente para viver.
Vou
terminar com um pedido a meus filhos e netos: continuai, como até agora, o
“EXEMPLO DAS VARAS” Levanto
a minha taça e brindo pela felicidade dos meus filhos, netos e noras, e ainda
pelas pessoas amigas que nos acompanham nesta homenagem” Económico sem avareza, conseguiu com o seu perpétuo trabalho e parcos rendimentos formar os cinco filhos, para ele, a sua maior alegria e glória, e reunir a maior casa agrícola de Vale de Lobo. Não julgava mais rico o que mais tem, mas o que menos precisa. Não
admitia misérias, mas castigava os esbanjamentos, repetindo aos filhos, se
alguma vez mostravam propensão para gastos exagerados, as parábolas e máximas
adequadas. Independente
e com forte personalidade, procurava sempre remediar por si as suas faltas: não
pedia dinheiro emprestado, nem jogava. Dotado de largo espírito de curiosidade,
gostava de viajar e, onde ia via tudo, e de tudo procurava conhecer a causa ou
origem.
Entre
as suas predilecções figurava especialmente o teatro, preferindo-o ao cinema. Como
os seus conhecimentos não lhe permitissem preparar os filhos para as cadeiras
dos cursos que frequentavam, estudava e aprendia com eles, como afirmou no seu
brinde, no propósito evidente de os ajudar e animar a prosseguir com boa
disposição.
Foi
um educador nato e auto-didata, e tanto na sua vida particular como na
profissional e social. Adorava
o estudo da História “mestra da vida e pregoeira da antiguidade” e ensinava
aos filhos e aos discípulos as melhores estrofes dos Lusíadas e do D. Jaime e
simultaneamente trechos selectos do Padre António Vieira, Herculano, Garret,
etc.
Espírito
recto e fiel aos seus compromissos, nem mesmo na política ofendeu esta norma da
sua vida.
Por
mais de uma vez, inutilmente, os seus adversários exerceram pressão, fizeram
ameaças e procuraram vexá-lo com inspecções e acusações malévolas para
captar o seu auxílio eleitoral. Jamais conseguiram levá-lo à transigência,
fiel como era às amizades e sensível perante as pessoas de carácter e de
inteligência.
Foi
sempre um crente sincero conhecendo o catecismo e a liturgia. Dotado de
extraordinário bom senso, do equilíbrio dos afectos sob um carácter sem mácula,
agia com boa disposição e optimismo.
Lutador
e homem de acção, foi um propugnador desvelado do progresso e dos
melhoramentos locais, tendo conseguido dotar Vale de Lobo, sua pátria adoptiva,
com o abastecimento de águas, dois edifícios escolares e a Igreja matriz. Como
presidente da Junta de Freguesia reconstruiu e aumentou o cemitério paroquial,
construiu o cruzeiro da independência e promoveu o calcetamento das ruas.
Foi
vereador da Câmara Municipal do Concelho de Penamacor, Presidente e Secretário
da Junta de Freguesia de Vale de Lobo, Juiz de Paz em Benquerença, Meimão e
Vale de Lobo, Tesoureiro e Mesário da Confraria de Nossa senhora da Póvoa.
Correspondente de vários jornais, ajudante do Registo Civil, solicitador e Notário
gratuito de todos os vizinhos, entre os quais procurou sempre estabelecer a
melhor harmonia.
Ensinou
gerações sucessivas durante 43 anos, contando-se por centenas os alunos que
preparou para exames de instrução primária e dos liceus.
No
seu bom conselho beberam muitos a orientação para a vida, e por isso bendizem
e louvam a sua memória.
Presidente
e Vogal de vários júris de exames e delegado do inspector escolar, terminava
sempre as suas comissões de serviço com o aliciamento de novos amigos,
especialmente entre os colegas que muito o apreciavam.
Lavrador
progressivo, com o culto da árvore, foi o maior olivicultor de Vale de Lobo.
Por
ocasião do seu falecimento escreveu-me o meu saudoso amigo, também já
falecido, grande prosador e jornalista, Bourbon e Menezes: “a perda de um pai
é sempre um vínculo que se desfaz com mágoa, mormente se, com essa vida que
se foi, se apaga, menos para a saudade dos que o amaram, um bondoso coração”.
Como
a saudade, efectivamente, se não apagou nem apagará no coração de seus
filhos, aqui deixo eu, aqui deixamos todos com a sinceridade e a certeza do
nosso eterno amor, uma prece a Deus para que o tenha, como bem merece, na sua
santa Glória. (Jaime
Lopes Dias – Lisboa 1950) O MONUMENTO
O seu antigo aluno, colonialista em Vouga (Angola) Manuel Manteigas, escreveu ao Dr. Jaime Lopes Dias em 28 de Fevereiro de 1949: Quanto a seu pai, ele não faz somente falta aos seus, mas sim a todos, e ainda especialmente ao nosso Vale de Lobo, que muito e muito lhe ficou devendo e deve, e nunca lhe pagará... Nada sou, mas o pouco ou nada que sou a ele o devo, que foi o primeiro homem a fazer-me tomar um rumo diferente daquele que certamente me estaria reservado... Conto ir aí em 1950 a passar algum tempo. Tenho pensado tomar a iniciativa de levar a cabo uma ideia que tenho tido desde que soube da sua morte, e estou certo que não haverá nenhum valedelobense digno de o ser, que não concorde e concorra para se levar a efeito. E se houver quem não concorde e não concorra, haverá um que levará a cabo a ideia. António Augusto Manteigas, irmão de Manuel Manteigas, dizia ao Dr. Jaime Lopes Dias, em carta de 7 de Julho de 1949, quando regressou de África de ao pé do irmão, da vontade firme de ambos prestarem homenagem ao seu professor, José Lopes Dias: Que eu seja também contado no número dos tantos que hão-de ser concorrentes para tão valiosa obra, ou seja, o monumento em honra daquele que deus já tem, o vosso Pai, homem que tanto fez pelo nosso Vale de Lobo, pelo seu engrandecimento, homem que tanto reduziu o analfabetismo nesta terra, homem, enfim amigo de toda a gente... De uma carta datada de 28 de Setembro de 1948, do tenente José Pires Cameira, extraio os seguintes períodos: Logo após o falecimento do Pai de V.Exª. foi por mim, pelo Sr. Padre Francisco Domingos Chorão e o Sr. professor José Maria Ladeira, lembrado que a nossa freguesia devia prestar homenagem ao homem que tão longos anos esteve à frente dos seus destinos. Como professor soube imprimir ao ensino um carácter pedagógico e instrutivo tão proveitoso e modelar que até hoje, bem poucos o conseguiram igualar. Se muitos dos filhos da nossa terra disfrutam hoje uma vida melhor, em boa verdade lho devem. É que o amor dedicado à sua profissão e o carinho com que ensinava os seus alunos predispunha a afeiçoar-se ao estudo e levava-os ao aproveitamento assás lisongeiro que sempre obtiveram. E isto numa época em que a maioria dos pais de família consideravam "coisa inútil" mandar os filhos à escola. Esta modalidade da sua vida bem merece, daqueles que foram iluminados pela luz espiritual que de si irradiou, um gesto de eterna gratidão. No campo das realizações práticas, estão bem patentes aos olhos de todos, os progressos que deram lustre e benefício à freguesia, como sejam: construção de escolas, captação de águas, calcetamento de ruas, etc., e por último, como coroa resplandente e inestimável da sua vida a edificação da Igreja paroquial. O presidente da Junta de Freguesia, Joaquim Martins Bogas, velho amigo e discípulo de José Lopes Dias, manifestou sempre o desejo de ver realizada a homenagem, por mais de uma vez afirmando que de tudo o que dele ou da Junta dependesse se poderia dispor. A Imprensa entoara hinos de louvor à sua memória, bastando reproduzir a seguinte correspondência do Jornal "Novidades" de 10 de Fevereiro de 1948: Benquerença (Penamacor) 7 - Na sua casa de Vale de Lobo faleceu anteontem o professor José Lopes Dias. Esta expressão dolorosíssima diz-nos que a morte implacável abateu uma das mais prestigiosas e prestimosas figuras da Beira Baixa. Inteligência lúcida, vontade forte e decidida, alma aberta aos grandes ideais do progresso e bem-fazer, o ilustre finado deixa uma obra, a tantos títulos, notável, que é padrão eloquentíssimo de benemerências sem conto, de iniciativas rasgadas e grandiosas. A afirmá-lo, aí ficam todos os melhoramentos que deixa ao seu Vale de Lobo querido, terra que adoptou como sua desde que começou a exercer o magistério primário, a que se votou com inexcedível carinho e superior competência. Os edifícios escolares, dos melhores do concelho de Penamacor, o calcetamento das ruas, o chafariz e marco fontenário, o lavadouro público, a magnífica e bela Igreja paroquial que é a melhor desta região, são obra sua, a atestar uma acção e tenacidade invulgares, a que não estamos habituados em homens que vivem em meios rurais, pobres e reduzidos, como ele viveu sempre. Mas a alma do Professor Lopes Dias era exornada de muitas outras virtudes e predicados que dominam o nosso espírito e empolgam a nossa admiração. Este Homem tinha a paixão dominante de bem-fazer. Os pobres, os humildes da sua terra e das circunvizinhas, encontravam sempre no recurso à sua pessoa amparo e protecção. Sabem-no todos os que no norte do seu concelho e no sul do Sabugal, precisavam um favor ou uma recomendação. Pai modelar, formou e educou todos os seus filhos, com tal elevação e critério que hoje são doutores. Citemos aqui os seus nomes, num abraço sentido de mágoa profunda, acompanhando-os na sua dor pungente e amarga. O professor Lopes Dias era pai dos nossos queridíssimos amigos: Jaime Lopes Dias - nascido em 25/10/1890 José Lopes Dias - nascido em 5/5/1900 António Lopes Dias - nascido em 1/3/1903 Joaquim Lopes Dias - nascido em 22/8/1904 Vitor Manuel Lopes Dias - nascido em 4/6/1910
O seu funeral, com Ofícios e Missa de corpo presente, a que assistiram 15 sacerdotes, foi imponentíssima manifestação de sentimento e de dor. Centenas, milhares de pessoas de todas as categorias sociais principalmente de Castelo Branco, Penamacor, Sabugal e Belmonte, tomaram parte no préstito fúnebre. Das freguesias circunvizinhas, como a Benquerença, sua terra natal, pode dizer-se que toda a população quis render-lhe a derradeira homenagem do seu preito de admiração e reconhecimento. À Exmª. família Lopes Dias, em luto, a expressão de nosso mais sentido pezar, curvando-nos com emoção ante a memória abençoada do querido Morto. A sua casa têm chegado condolências de vários pontos do país, inclusivamente, expressivos telegramas dos Senhores Presidente da República e Cardeal Patriarca de Lisboa. Para saldar a dívida, que tantos consideravam em aberto, reuniram-se em Vale de Lobo, em 8 de Outubro de 1949, as principais figuras representativas do meio e dessa reunião foi lavrada uma acta com o seguinte teor: Aos oito dias do mês de Outubro do ano de 1949, reuniram-se no Posto de Assistência Social de Vale de Lobo os senhores Padre Francisco Domingos Chorão, José Pires Cameira, tenente reformado, José Maria Ladeira, professor oficial, Joaquim Martins Bogas, presidente da Junta de Freguesia, José Pinto, José Jerónimo Lucas e António Manteigas, comerciantes, e José Maria Dinis e José Vaz, proprietários, a fim de assentarem, como representantes da freguesia de Vale de Lobo, no caminho a seguir quanto à homenagem a prestar ao falecido professor de ensino primário José Lopes Dias. Expostos os fins da reunião pelo reverendo Francisco Domingos Chorão, constituiram-se seguidamente: uma deliberativa, formada pelos senhores tenente reformado José Pires Cameira, padre Francisco Domingos Chorão e professor oficial José Maria Ladeira, respectivamente presidente, tesoureiro e secretário; e outra executiva composta pelos senhores Joaquim Martins Bogas, José Maria Dinis e António Manteigas, podendo agregar a si outras pessoas, que promoverá a colheita de donativos destinados a custear as despesas resultantes da construção de um monumento que perpetuará a memória do saudoso professor José Lopes Dias a quem esta freguesia muito ficou devendo, quer como professor muito distinto que durante quarenta anos ministrou o ensino a sucessivas gerações, quer como presidente da sua Junta de Freguesia, promovendo a construção de escolas, o abastecimento de água à povoação e, finalmente, a construção de uma Igreja. Mais se resolveu que esta homenagem póstuma lhe fosse prestada no segundo aniversário da sua morte - cinco de Fevereiro de mil novecentos e cinquenta. Como não houvesse mais nada a tratar o presidente encerrou a sessão da qual, para constar, se lavrou a presente acta que vai ser assinada por todos os presentes e por mim secretário, que a escrevi. Vale de Lobo, 12 de Outubro de 1949 O secretário José Maria Ladeira A Câmara Municipal do concelho de Penamacor deliberou, em reunião ordinária, de 9 de Janeiro de 1950, associar-se à homenagem a prestar pela freguesia de Vale de Lobo ao seu grande amigo, professor José Lopes Dias, conceder licença para ser erigido o monumento no Largo em frente à casa que foi sua residência, dar a este o nome de "Largo Professor José Lopes Dias", e associar-se às homenagens que vão ser prestadas. Manuel Manteigas dirigiu uma carta, datada de 12 de Novembro de 1949, à comissão promotora onde, entre outras afirmações, figura esta: Calculando quanto infelizmente para muitos lhe será custoso contribuirem, embora modestamente, eu venho por meio desta, pôr à disposição de V.Exª. a importância que for necessária. O monumento aí fica, dois anos volvidos sobre o falecimento do professor José Lopes Dias, a atestar que ainda se não perderam entre os beirões os sentimentos de bondade, de afectividade e de justiça! Será também estímulo para todos os que alguma coisa podem. Se, como o professor José Lopes Dias, acudirem às necessidades dos povos e não lhe recusarem amparo moral e espiritual, não lhes faltarão agradecimentos. A saudade da freguesia de Vale de Lobo encontrou a sua devida expressão na arte do escultor Raúl Xavier e do arquitecto seu filho, Luís Américo Xavier, em que assinalaram, uma vez mais, o seu talento já consagrado. O bronze eterno constituirá para os vivos que o virem e para os que se nos seguirem, mais um exemplo desta pequenina povoação, nossa querida pátria, talvez única aldeia, ou das muito poucas que se poderá ufanar de ter realizado uma homenagem desta natureza. Não se estranhará que os filhos do homenageado se associem com louvores e gratidão ao que se faz pela memória de seu querido e saudoso pai, a quem tudo devem. Certamente os corações bem formados aceitarão a sua atitude como o cumprimento de piedoso e sagrado dever isento de vaidades. Aqui consignam singelamente o seu profundo reconhecimento aos Escultor e arquitecto, ao povo de Vale de Lobo, à Câmara Municipal de Penamacor, e a todos os que se associaram a este acto de homenagem, dando-lhes um significado não apenas de devoção e sentimento mas também de dever cívico. Subscritores do Monumento (Por ordem alfabética)
(Dr. Jaime Lopes Dias) Américo Valente - Pesquisas
|