Vale da Senhora da Póvoa

Vale de Lobo

José Lopes Dias

(Professor)

 Educador e benemérito

8/9/1864 – 5/2/1948

 

 

Em casa modesta mas tipicamente portuguesa com dois balcões alpendrados: um voltado para a rua da Igreja, arruamento principal da povoação, e outro mais amplo, sobranceiro a um pequeno quintal, ambos simples mas acolhedores, nasceu na freguesia de Benquerença, do concelho de Penamacor, em 8 de Setembro de 1864 (pelas 16 horas, numa quarta feira, dia da natividade de Nossa Senhora, dia também em que acabam as merendas e começam os serões entre os trabalhadores do campo), José filho primogénito de um casal de modestos proprietários: António Lopes Dias e Isabel Delgado, e neto paterno de Bernardino Lopes Dias e Antónia Joaquina, e materno de Filipe Ferreira e Maria Delgado, também cultivadores remediados, e todos sem mácula que os envergonhasse perante Deus ou perante os homens.

Único varão na descendência de seus pais, teve duas irmãs: Ana Joaquina e Maria Joaquina.

António Lopes Dias, seu pai, pessoa muito sensata e amigo da instrução, viu que os seus rendimentos, necessários à sustentação da família, não chegavam para levar o filho a um curso superior, e por isso limitou as suas ambições a, depois de ter obtido distinção no exame de instrução elementar, entregá-lo, para habilitação ao Magistério Primário ao professor José Freire de Novais, o professor Freire, como era conhecido, homem de larga cultura que ao tempo criara em Benquerença um centro de estudos e preparação de professores, frequentado por dezenas de alunos, e de onde efectivamente saiu grande parte do professorado de ensino primário que, até há pouco, preencheu a maioria das escolas dos concelhos limítrofes. (foi de 10 libras o preço ajustado entre Antónia Lopes Dias e o professor Freire pela preparação para o exame).

José Lopes Dias, dado apto para exame, prestou as suas provas, apenas com 18 anos de idade, em Castelo Branco, onde obteve a classificação de “suficiente”.

Brioso, não se conformou com este resultado e requereu novas provas, onde obteve a classificação de “bom”. 

Vaga a escola de Vale de Lobo, freguesia que dista da Benquerença sete quilómetros, requereu-a e nela foi provido interinamente, em Maio de 1883.

Todas as manhãs escaldantes de Verão ou brumosas e frias de Inverno, lá seguia a pé, por velhos caminhos, acompanhado da merenda, a dar a escola, até que definitivamente se fixou, estabelecendo casa e família.

Muito amigo de suas irmãs e previdente, resolveu habilitar para o Magistério Ana Joaquina, a mais velha e com melhores aptidões.

Assim poderiam as duas amparar-se e acompanhar-se na vida.

E de facto, Ana Joaquina fez o seu exame e foi colocada na escola feminina da freguesia de Quadrazais, do concelho de Sabugal, onde viveu muitos anos e conquistou a estima dos quadrazenhos, que ainda, muito tempo passado depois de ter deixado a escola, vinham visitá-la propositadamente à Benquerença onde fora colocada. 

José Lopes Dias casou em Vale de Lobo, em primeiras núpcias, em 1889, com Angélica Mendes Barreiros, filha de António Francisco Barreiros e de Maria Mendes, e deste matrimónio houve três filhos: Jaime, que nasceu a 25 de Outubro de 1890, José a 28 de Julho de 1892 e António a 23 de Maio de 1895. Com 25 anos incompletos sua dedicada e nunca olvidada esposa, como deixou escrito, faleceu no dia 24 de Junho de 1895, tendo durado o matrimónio menos de seis anos.

O filho mais velho reservou-o então para seu companheiro, como sempre foi hora a hora, minuto a minuto, ambos inseparáveis na dor que os pungia, e os mais novos, confiou-os à companhia e guarda da querida e saudosa madrinha Ana Joaquina, tendo falecido: José o mais velho, com cinco anos de idade, em 28 de Agosto de 1897, e António, o mais novo, em 12 de Março de 1896, com nove meses incompletos, ambos sepultados no cemitério de Quadrazais. 

Após dois anos e meio de viuvez, contraiu segundas núpcias, em 26 de Janeiro de 1898, com D. Carlota Leitão Barreiros, filha de Joaquim Vaz e de Cândida Leitoa, prima da primeira esposa, ambas netas de Joaquim Vaz e Isabel Mendes. 

Do segundo matrimónio deixou quatro filhos: José que nasceu a 5 de Maio de 1900, António a 1 de Março de 1903, Joaquim a 22 de Agosto de 1904, e Victor Manuel a 4 de Julho de 1910. 

Durou este casamento até ao falecimento de D. Carlota, a 2 de Agosto de 1941, quarenta e três anos e meio, decorridos na melhor amizade e harmonia. 

Observador arguto, muito amigo do único filho que lhe restava e não menos de sua nova esposa, planeou a forma de estabelecer e cimentar a amizade entre todos, fazendo desaparecer, sensata e inteligentemente, do seu lar os nomes de madrasta e enteado que, em verdade, nunca foram usados entre mim e D. Carlota, a quem tratei sempre como mãe e ela igualmente como filho, e a quem aqui rendo o preito de minha profunda gratidão e saudade. 

E para que entre os irmãos perdurasse e se cultivasse mais amizade e maior afecto, eu devia ser, e fui, o padrinho de todos.

Não deve deixar de ser recordada como de boa justiça a aquiescência e aprazimento da mãe Carlota.

Sofrendo embora de reumatismo gotoso que durante anos o mortificou, meu pai, pôde atingir, mercê da sua rija compleição, os 83 anos de idade, falecendo na sua casa de Vale de Lobo pelas 21 horas e trinta minutos do dia 5 de Fevereiro de 1948, uma quinta feira. 

A sua descendência era constituída na referida data, além dos cinco filhos já referidos, por nove netos:

António de Andrade Pissarra Lopes Dias

Maria de Lourdes de Andrade Pissarra Lopes Dias

Jaime de Andrade Pissarra Lopes Dias

Maria Emília de Andrade Pissarra Lopes Dias

 

José Xavier Lopes Dias

António Manuel Xavier Lopes Dias

José de Oliveira Lopes Dias

António de Oliveira Lopes Dias

Pedro de Oliveira Lopes Dias

E sete bisnetos:

Maria Paula Matos Gouveia Lopes Dias

Maria Cecília Matos Gouveia Lopes Dias

Virgínia Maria Matos Gouveia Lopes Dias

Maria Dulce Lopes Dias Manarte

Maria Elisabeth Lopes Dias Manarte

José Lopes Dias Manarte

Maria Inês Lopes Dias Manarte

Dotado de verdadeiro espírito de sacrifício, tinha o mais acendrado culto pela família.

Seguia e repetia bastas vezes aos filhos, velhas máximas populares que encerravam grandes lições, fruto de larga experiência.

A parábola das varas, que juntas resistiam ao mais forte e divididas qualquer as quebrava, era bem conhecida de seus filhos e de todos os seus alunos!

No dia 8 de Setembro de 1934, quando completou 70 anos de idade, leu aos filhos e amigos presentes, o seguinte brinde:

Há tempos disse-me o Jaime que para festejar o meu septuagésimo aniversário natalício, a minha família se juntaria toda este ano, nesta casa.

Foi-me agradável a notícia e fiquei na expectativa.

Realiza-se o projecto. Pois bem, eu quero lembrar aqui que reputo a manifestação espontânea dele, e de todos os meus filhos, legítima, bem como legítimo julgo o nosso orgulho, porque de um humilde professor primário saíram cinco doutores, até hoje, caso único na nossa Terra!

Isto dizem amigos e estranhos que nos conhecem.

Esta manifestação com que me quisestes honrar é grata para todos nós e decerto cairá bem aos olhos da sociedade porque, se materialmente foi muito o que este casal fez, não foi menor o meu esforço e trabalho como professor primário.

Muitos alunos por esse país fora se têm reunido e levado a efeito festas de gratidão aos seus antigos professores! O que aqui se passa é mais simples mas igualmente significativo.

Permito-me falar de mim como Professor.

Depois de vos habilitar para o primeiro exame, obriguei-me a estudar lições de alemão, francês e latim, para vos ajudar, e o certo é que fiquei sabendo declinar os casos simples e conjugar os verbos regulares. Gramática, dicionários, tudo desfolhava para vos transmitir alguns conhecimentos secundários.

De forma que, se como pai gastei centenas de contos para preparar o vosso futuro, como professor fiz também alguns sacrifícios.

Faço votos para que todos sigais o meu exemplo junto de vossos filhos.

Creio que se a vossa carreira foi brilhante eu concorri para ela e gozo agora da vossa glória por nela ter o meu quinhão.

Acho-me bem com a minha consciência de Pai e vosso Mestre e só duas coisas agora desejava que Deus me concedesse: ver ultimada a formatura do Victor e saúde e alguns anos de vida, porque de resto nada mais ambiciono.

Temos paz e o suficiente para viver.

Vou terminar com um pedido a meus filhos e netos: continuai, como até agora, o “EXEMPLO DAS VARAS”

Levanto a minha taça e brindo pela felicidade dos meus filhos, netos e noras, e ainda pelas pessoas amigas que nos acompanham nesta homenagem” 

Económico sem avareza, conseguiu com o seu perpétuo trabalho e parcos rendimentos formar os cinco filhos, para ele, a sua maior alegria e glória, e reunir a maior casa agrícola de Vale de Lobo. Não julgava mais rico o que mais tem, mas o que menos precisa.

Não admitia misérias, mas castigava os esbanjamentos, repetindo aos filhos, se alguma vez mostravam propensão para gastos exagerados, as parábolas e máximas adequadas. 

Independente e com forte personalidade, procurava sempre remediar por si as suas faltas: não pedia dinheiro emprestado, nem jogava. Dotado de largo espírito de curiosidade, gostava de viajar e, onde ia via tudo, e de tudo procurava conhecer a causa ou origem. 

Entre as suas predilecções figurava especialmente o teatro, preferindo-o ao cinema.

Como os seus conhecimentos não lhe permitissem preparar os filhos para as cadeiras dos cursos que frequentavam, estudava e aprendia com eles, como afirmou no seu brinde, no propósito evidente de os ajudar e animar a prosseguir com boa disposição. 

Foi um educador nato e auto-didata, e tanto na sua vida particular como na profissional e social.

Adorava o estudo da História “mestra da vida e pregoeira da antiguidade” e ensinava aos filhos e aos discípulos as melhores estrofes dos Lusíadas e do D. Jaime e simultaneamente trechos selectos do Padre António Vieira, Herculano, Garret, etc. 

Espírito recto e fiel aos seus compromissos, nem mesmo na política ofendeu esta norma da sua vida.

Por mais de uma vez, inutilmente, os seus adversários exerceram pressão, fizeram ameaças e procuraram vexá-lo com inspecções e acusações malévolas para captar o seu auxílio eleitoral. Jamais conseguiram levá-lo à transigência, fiel como era às amizades e sensível perante as pessoas de carácter e de inteligência.

Foi sempre um crente sincero conhecendo o catecismo e a liturgia. Dotado de extraordinário bom senso, do equilíbrio dos afectos sob um carácter sem mácula, agia com boa disposição e optimismo.

Lutador e homem de acção, foi um propugnador desvelado do progresso e dos melhoramentos locais, tendo conseguido dotar Vale de Lobo, sua pátria adoptiva, com o abastecimento de águas, dois edifícios escolares e a Igreja matriz. Como presidente da Junta de Freguesia reconstruiu e aumentou o cemitério paroquial, construiu o cruzeiro da independência e promoveu o calcetamento das ruas.

Foi vereador da Câmara Municipal do Concelho de Penamacor, Presidente e Secretário da Junta de Freguesia de Vale de Lobo, Juiz de Paz em Benquerença, Meimão e Vale de Lobo, Tesoureiro e Mesário da Confraria de Nossa senhora da Póvoa. Correspondente de vários jornais, ajudante do Registo Civil, solicitador e Notário gratuito de todos os vizinhos, entre os quais procurou sempre estabelecer a melhor harmonia.

Ensinou gerações sucessivas durante 43 anos, contando-se por centenas os alunos que preparou para exames de instrução primária e dos liceus.

No seu bom conselho beberam muitos a orientação para a vida, e por isso bendizem e louvam a sua memória.

Presidente e Vogal de vários júris de exames e delegado do inspector escolar, terminava sempre as suas comissões de serviço com o aliciamento de novos amigos, especialmente entre os colegas que muito o apreciavam.

Lavrador progressivo, com o culto da árvore, foi o maior olivicultor de Vale de Lobo.

Por ocasião do seu falecimento escreveu-me o meu saudoso amigo, também já falecido, grande prosador e jornalista, Bourbon e Menezes: “a perda de um pai é sempre um vínculo que se desfaz com mágoa, mormente se, com essa vida que se foi, se apaga, menos para a saudade dos que o amaram, um bondoso coração”.

Como a saudade, efectivamente, se não apagou nem apagará no coração de seus filhos, aqui deixo eu, aqui deixamos todos com a sinceridade e a certeza do nosso eterno amor, uma prece a Deus para que o tenha, como bem merece, na sua santa Glória.

 (Jaime Lopes Dias – Lisboa 1950)

O MONUMENTO

 

A ideia de uma homenagem à honrada memória do Professor José Lopes Dias surgiu desde as primeiras horas do seu falecimento.

O seu antigo aluno, colonialista em Vouga (Angola) Manuel Manteigas, escreveu ao Dr. Jaime Lopes Dias em 28 de Fevereiro de 1949:

Quanto a seu pai, ele não faz somente falta aos seus, mas sim a todos, e ainda especialmente ao nosso Vale de Lobo, que muito e muito lhe ficou devendo e deve, e nunca lhe pagará...

Nada sou, mas o pouco ou nada que sou a ele o devo, que foi o primeiro homem a fazer-me tomar um rumo diferente daquele que certamente me estaria reservado...

Conto ir aí em 1950 a passar algum tempo. Tenho pensado tomar a iniciativa de levar a cabo uma ideia que tenho tido desde que soube da sua morte, e estou certo que não haverá nenhum valedelobense digno de o ser, que não concorde e concorra para se levar a efeito. E se houver quem não concorde e não concorra, haverá um que levará a cabo a ideia.

António Augusto Manteigas, irmão de Manuel Manteigas, dizia ao Dr. Jaime Lopes Dias, em carta de 7 de Julho de 1949, quando regressou de África de ao pé do irmão, da vontade firme de ambos prestarem homenagem ao seu professor, José Lopes Dias:

Que eu seja também contado no número dos tantos que hão-de ser concorrentes para tão valiosa obra, ou seja, o monumento em honra daquele que deus já tem, o vosso Pai, homem que tanto fez pelo nosso Vale de Lobo, pelo seu engrandecimento, homem que tanto reduziu o analfabetismo nesta terra, homem, enfim amigo de toda a gente...

De uma carta datada de 28 de Setembro de 1948, do tenente José Pires Cameira, extraio os seguintes períodos:

Logo após o falecimento do Pai de V.Exª. foi por mim, pelo Sr. Padre Francisco Domingos Chorão e o Sr. professor José Maria Ladeira, lembrado que a nossa freguesia devia prestar homenagem ao homem que tão longos anos esteve à frente dos seus destinos. Como professor soube imprimir ao ensino um carácter pedagógico e instrutivo tão proveitoso e modelar que até hoje, bem poucos o conseguiram igualar. Se muitos dos filhos da nossa terra disfrutam hoje uma vida melhor, em boa verdade lho devem.

É que o amor dedicado à sua profissão e o carinho com que ensinava os seus alunos predispunha a afeiçoar-se ao estudo e levava-os ao aproveitamento assás lisongeiro que sempre obtiveram. E isto numa época em que a maioria dos pais de família consideravam "coisa inútil" mandar os filhos à escola.

Esta modalidade da sua vida bem merece, daqueles que foram iluminados pela luz espiritual que de si irradiou, um gesto de eterna gratidão. No campo das realizações práticas, estão bem patentes aos olhos de todos, os progressos que deram lustre e benefício à freguesia, como sejam: construção de escolas, captação de águas, calcetamento de ruas, etc., e por último, como coroa resplandente e inestimável da sua vida a edificação da Igreja paroquial.

O presidente da Junta de Freguesia, Joaquim Martins Bogas, velho amigo e discípulo de José Lopes Dias, manifestou sempre o desejo de ver realizada a homenagem, por mais de uma vez afirmando que de tudo o que dele ou da Junta dependesse se poderia dispor.

A Imprensa entoara hinos de louvor à sua memória, bastando reproduzir a seguinte correspondência do Jornal "Novidades" de 10 de Fevereiro de 1948:

Benquerença (Penamacor) 7 - Na sua casa de Vale de Lobo faleceu anteontem o professor José Lopes Dias. Esta expressão dolorosíssima diz-nos que a morte implacável abateu uma das mais prestigiosas e prestimosas figuras da Beira Baixa. Inteligência lúcida, vontade forte e decidida, alma aberta aos grandes ideais do progresso e bem-fazer, o ilustre finado deixa uma obra, a tantos títulos, notável, que é padrão eloquentíssimo de benemerências sem conto, de iniciativas rasgadas e grandiosas. A afirmá-lo, aí ficam todos os melhoramentos que deixa ao seu Vale de Lobo querido, terra que adoptou como sua desde que começou a exercer o magistério primário, a que se votou com inexcedível carinho e superior competência. Os edifícios escolares, dos melhores do concelho de Penamacor, o calcetamento das ruas, o chafariz e marco fontenário, o lavadouro público, a magnífica e bela Igreja paroquial que é a melhor desta região, são obra sua, a atestar uma acção e tenacidade invulgares, a que não estamos habituados em homens que vivem em meios rurais, pobres e reduzidos, como ele viveu sempre.

Mas a alma do Professor Lopes Dias era exornada de muitas outras virtudes e predicados que dominam o nosso espírito e empolgam a nossa admiração. Este Homem tinha a paixão dominante de bem-fazer. Os pobres, os humildes da sua terra e das circunvizinhas, encontravam sempre no recurso à sua pessoa amparo e protecção. Sabem-no todos os que no norte do seu concelho e no sul do Sabugal, precisavam um favor ou uma recomendação. Pai modelar, formou e educou todos os seus filhos, com tal elevação e critério que hoje são doutores.

Citemos aqui os seus nomes, num abraço sentido de mágoa profunda, acompanhando-os na sua dor pungente e amarga. O professor Lopes Dias era pai dos nossos queridíssimos amigos:

Jaime Lopes Dias - nascido em 25/10/1890

José Lopes Dias - nascido em 5/5/1900

António Lopes Dias - nascido em 1/3/1903

Joaquim Lopes Dias - nascido em 22/8/1904

Vitor Manuel Lopes Dias - nascido em 4/6/1910

 

Devemos dizer que o querido e ilustre finado era uma alma de fé, um católico de mandamentos. Já nos referimos à esplêndida Igreja que deixa ao Vale de Lobo mas podemos afirmar que, poucos dias antes de morrer, sentindo-se vergar ao peso dos anos e com a vida a fugir-lhe, em plena lucidez de espírito, mandou chamar o seu pároco, confessou-se e comungou edificantíssimamente e foi rodeado pelo carinho e aljofrado pelas lágrimas dos seus que entregou a alma ao Senhor. Que descanse em paz o queridíssimo amigo.

O seu funeral, com Ofícios e Missa de corpo presente, a que assistiram 15 sacerdotes, foi imponentíssima manifestação de sentimento e de dor. Centenas, milhares de pessoas de todas as categorias sociais principalmente de Castelo Branco, Penamacor, Sabugal e Belmonte, tomaram parte no préstito fúnebre.

Das freguesias circunvizinhas, como a Benquerença, sua terra natal, pode dizer-se que toda a população quis render-lhe a derradeira homenagem do seu preito de admiração e reconhecimento.

À Exmª. família Lopes Dias, em luto, a expressão de nosso mais sentido pezar, curvando-nos com emoção ante a memória abençoada do querido Morto. A sua casa têm chegado condolências de vários pontos do país, inclusivamente, expressivos telegramas dos Senhores Presidente da República e Cardeal Patriarca de Lisboa.

Para saldar a dívida, que tantos consideravam em aberto, reuniram-se em Vale de Lobo, em 8 de Outubro de 1949, as principais figuras representativas do meio e dessa reunião foi lavrada uma acta com o seguinte teor:

Aos oito dias do mês de Outubro do ano de 1949, reuniram-se no Posto de Assistência Social de Vale de Lobo os senhores Padre Francisco Domingos Chorão, José Pires Cameira, tenente reformado, José Maria Ladeira, professor oficial, Joaquim Martins Bogas, presidente da Junta de Freguesia, José Pinto, José Jerónimo Lucas e António Manteigas, comerciantes, e José Maria Dinis e José Vaz, proprietários, a fim de assentarem, como representantes da freguesia de Vale de Lobo, no caminho a seguir quanto à homenagem a prestar ao falecido professor de ensino primário José Lopes Dias. Expostos os fins da reunião pelo reverendo Francisco Domingos Chorão, constituiram-se seguidamente: uma deliberativa, formada pelos senhores tenente reformado José Pires Cameira, padre Francisco Domingos Chorão e professor oficial José Maria Ladeira, respectivamente presidente, tesoureiro e secretário; e outra executiva composta pelos senhores Joaquim Martins Bogas, José Maria Dinis e António Manteigas, podendo agregar a si outras pessoas, que promoverá a colheita de donativos destinados a custear as despesas resultantes da construção de um monumento que perpetuará a memória do saudoso professor José Lopes Dias a quem esta freguesia muito ficou devendo, quer como professor muito distinto que durante quarenta anos ministrou o ensino a sucessivas gerações, quer como presidente da sua Junta de Freguesia, promovendo a construção de escolas, o abastecimento de água à povoação e, finalmente, a construção de uma Igreja. Mais se resolveu que esta homenagem póstuma lhe fosse prestada no segundo aniversário da sua morte - cinco de Fevereiro de mil novecentos e cinquenta. Como não houvesse mais nada a tratar o presidente encerrou a sessão da qual, para constar, se lavrou a presente acta que vai ser assinada por todos os presentes e por mim secretário, que a escrevi.

Vale de Lobo, 12 de Outubro de 1949

O secretário

José Maria Ladeira

A Câmara Municipal do concelho de Penamacor deliberou, em reunião ordinária, de 9 de Janeiro de 1950, associar-se à homenagem a prestar pela freguesia de Vale de Lobo ao seu grande amigo, professor José Lopes Dias, conceder licença para ser erigido o monumento no Largo em frente à casa que foi sua residência, dar a este o nome de "Largo Professor José Lopes Dias", e associar-se às homenagens que vão ser prestadas. 

Manuel Manteigas dirigiu uma carta, datada de 12 de Novembro de 1949, à comissão promotora onde, entre outras afirmações, figura esta: Calculando quanto infelizmente para muitos lhe será custoso contribuirem, embora modestamente, eu venho por meio desta, pôr à disposição de V.Exª. a importância que for necessária.

O monumento aí fica, dois anos volvidos sobre o falecimento do professor José Lopes Dias, a atestar que ainda se não perderam entre os beirões os sentimentos de bondade, de afectividade e de justiça!

Será também estímulo para todos os que alguma coisa podem. Se, como o professor José Lopes Dias, acudirem às necessidades dos povos e não lhe recusarem amparo moral e espiritual, não lhes faltarão agradecimentos.

A saudade da freguesia de Vale de Lobo encontrou a sua devida expressão na arte do escultor Raúl Xavier e do arquitecto seu filho, Luís Américo Xavier, em que assinalaram, uma vez mais, o seu talento já consagrado.

O bronze eterno constituirá para os vivos que o virem e para os que se nos seguirem, mais um exemplo desta pequenina povoação, nossa querida pátria, talvez única aldeia, ou das muito poucas que se poderá ufanar de ter realizado uma homenagem desta natureza.

Não se estranhará que os filhos do homenageado se associem com louvores e gratidão ao que se faz pela memória de seu querido e saudoso pai, a quem tudo devem.

Certamente os corações bem formados aceitarão a sua atitude como o cumprimento de piedoso e sagrado dever isento de vaidades.

Aqui consignam singelamente o seu profundo reconhecimento aos Escultor e arquitecto, ao povo de Vale de Lobo, à Câmara Municipal de Penamacor, e a todos os que se associaram a este acto de homenagem, dando-lhes um significado não apenas de devoção e sentimento mas também de dever cívico.

Subscritores do Monumento

(Por ordem alfabética)

Abel da Silva Nabais

Admário Maria Dinis

Adélia Branca

Adriano Augusto

Afonso da Silva

Albertina Cameira

Albertina Lourenço

Alberto de Campos

Alberto Lopes

Alda da Silva

Alfredo Francisco

Alexandre Leitão Sénior

Alexandre Leitão Júnior

Amélia de Jesus Mendes - professora

Amorim Martins

Ana Carrilho

Ana Leitoa

Angélica Mendes

Angélica Nabais

António Adelino

António Augusto de Campos

António Augusto Manteigas

António Augusto Mendes

António Baptista

 António Brás

António Brito

António Cabanas

António Cameira

António de Campos Sénior

António Carlos

António Costa

António Félix de Campos

 António Gamas

António Gomes

António Lages

António Joaquim Branco

António Joaquim Capelo

António Leomaro

António Lopes

António Manuel Cameira - Engº Geógrafo

António Manuel Capelo

António Manuel Francisco

   António Manuel Mugeiro

António Manuel da Silva

 António Manteigas

António Martins Badaia

António Mendes Órfão

António Mendes da Ressurreição

António Mugeiro Lourenço

António Mugeiro da Piedade

António Nabais

António Pires

António Pires Antunes

António Pireis Cameira

António Pires da Silva

 António Pires Tomé 

António Robalo

António Seno

António da Silva Fonseca

António Teixeira

Augusto Capelo

Aurélio Silva

Bartolomeu Brito

Bartolomeu Pires Cheicho

Benvinda Martins

Bernardino Carrapato

Augusto Capelo

Aurélio Silva

Bartolomeu Brito

Bartolomeu Pires Cheicho

Benvinda Martins

Bernardino Carrapato

Bernardino Marques

Cândido da Silva

Carolina Martins

Clara de Jesus

Deolinda Mendes Esteves

Domingos Anselmo

Domingos Esteves Ramos

Domingos Vieira Fernandes

Eduardo Adelino - Regedor

Eduardo Adelino Júnior

Elisa de Jesus Mendes

Ernesto Antunes

Etelvina Augusta de Jesus

Félix Manteigas

Fites  Pires Cameira

Florêncio Francisco

Francisco Domingos Chorão - Padre

Genoveva Augusta

Helena Neto

Hermínio Pires Crisóstomo

Isabel Cameira

Isabel de Campos

Isabel de Jesus Mendes

Ismael Pires Mugeiro

Jaime Carlos

João Adelino Sénior

João António da Fonseca

João Antunes Cantoneiro

João Baptista

João de Campos

João Gamas

João José Roque

João Luís Brás

João Manuel Mendes

João Martins Afonso

João Martins Bogas

João Mendes

João Mendes Mugeiro

João Mugeiro

João Pires Tomé

João Raimundo Marques

João da Ressurreição Cheicho

João Robalo Roque

João Robalo Sénior

João da Silva Fonseca

Joaquim Adelino Pires

Joaquim Bartolomeu Cheicho

Joaquim António Hipólito

Joaquim Borrego Júnior

Joaquim Cabanas Sénior

Joaquim Capelo Valente

Joaquim Custódio Martins Badaia

Joaquim Esteves Figueira

Joaquim Félix de Campos

Joaquim Francisco Júnior

Joaquim Gamas Júnior

Joaquim Gamas Sénior

Joaquim Leitão

Joaquim Lopes Gonçalves

Joaquim Lourenço

Joaquim Manuel da Silva Fonseca

Joaquim Marques Roque

Joaquim Martins Bogas - Presidente da Junta

Joaquim Martins Sénior

Joaquim Nabais

Joaquim Pires Bogas

Joaquim Pires Borrego

Joaquim Pires Cameira

Joaquim Pires da Silva

Joaquim Pires Tomé

Joaquim dos Santos Robalo

Joaquim da Silva

Joaquim da Silva Fonseca

José Adelino

José Alberto

José António Nabais

José Augusto Ferreira

José Bernardo

José Carrilho

José Cheicho do Bartolomeu

José da Fonseca

José Francisco

José Gonçalves dos Santos

José Hipólito

José Jerónimo Lucas 

José Jerónimo Lucas da Silva

José Joaquim Bogas

José Joaquim Esteves

José Joaquim Tomás Bogas

José Leomaro

José Lopes Gonçalves

José Manuel Manso

José Manuel Martins

José Manuel Teixeira

José Maria Antunes

José Maria Carrapato

José Maria Dinis

José Maria Ladeira - Professor

José Maria Mugeiro

José Marques

José Martins

José Martins Badaia

José Mendes

José Nabais

José Pinto 

José Pires Cameira - Tenente

José Pires Cheicho

José dos Reis Bogas

José Robalo

José da Silva Fonseca

José da Silva Eiras

José Vaz

Leopoldina Júlia

Leopoldina Mendes

Luís Brás

Manuel Leomaro

Manuel Marques

Manuel Martins

Manuel Pires

Manuel Pires Rodrigues

Manuel Pires Cameira

Manuel Pires Cheicho

Manuel Francisco

Manuel Pires Mugeiro

Manuel Seno

Manuel da Silva

Manuel da Silva Fonseca

Porfírio Mugeiro

Porfírio Mugeiro Bogas

Maria dos Anjos Lourenço

Maria dos Anjos Nabais Caldeira

Maria Cândida

Maria do Céu

Maria do Céu Mendes

Maria da Encarnação Manteigas

Maria Ester Leal Lopes

Maria da Glória Cabanas

Maria de Jesus Carrilho

Maria José Mendes

Maria Josefina Mendes e filha

Maria Lucinda

Maria da Purificação da Silva

Martinha da Silva

Olivia Cameira

Orlindo Mugeiro

Patrocínia de Jesus da Silva

Porfírio Martins Badaia

Rosália Pires de Jesus

Rosalina Mendes

Rosalina Pires Branco

Rui Pedro

Tecla Pires Vaz

Teresa de Campos Manteigas

Teresa de Jesus Lourenço

Teresa de Jesus Pires

Virgínia Mendes

Vital Saraiva

Maria Teresa Branca

Maria Teresa de Campos

Vitor Borrego

 

 

 

 

(Dr. Jaime Lopes Dias)

Américo Valente - Pesquisas

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