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GENTE
ILUSTRE
Dr. Jaime Lopes Dias (1890-1977)
Com 86 anos de idade, faleceu na sua residência, em
Lisboa, o Dr. Jaime Lopes Dias, que foi até 1960 - ano em que se aposentou -
Director dos Serviços Centrais e Culturais da Câmara Municipal de Lisboa. Busto Em 1988, no mês de Outubro, comemorou-se o 98º aniversário de nascimento do Dr. Jaime Lopes Dias. As gentes do Vale da Senhora da Póvoa prestaram uma homenagem ao homem que deu a mão a muita gente desta terra no sentido de obterem emprego em Lisboa, nomeadamente na PSP, BSB e funcionários camarários, na sua grande maioria. O Dr. Jaime Lopes Dias contribuiu muito para a evolução desta terra, tendo construído a primeira Moagem electro-mecânica e um lagar de azeite. Doou terreno para a construção do Largo das Festas que agora tem o seu nome e o seu busto. Actualmente (2008) o busto encontra-se implantado no centro do Largo, mas, quando foi inaugurado, foi colocado junto ao muro do recinto. Houve festa com pompa e circunstância. Houve discursos e música. Discursaram o Presidente da Câmara de Penamacor (Tenente Ribeiro), o Padre Chorão (Pároco da freguesia), António Carrilho (presidente da Junta de Freguesia) e outras individualidades. Esteve presente o povo em geral. Eis algumas fotos gentilmente cedidas por sua neta Maria Inês Lopes Dias Manarte:
V Congresso Regional das Beiras - 1929 Tese apresentada pelo Dr. Jaime Lopes Dias Instrução. Necessidade de a tornar possível aos pobres. Não há português medianamente letrado que desconheça a tão repisada e confrangedora afirmação de que Portugal é um país de analfabetos. Uma época houve em que por esta e outras razões chegámos a ser apelidados de turcos do ocidente. Infelizmente não vai longe esse tempo, porque, não obstante a nossa situação sob o ponto de vista geral ter melhorado, a percentagem de analfabetos que foi de 80% anda ainda hoje por 60%. A República criou muitas escolas, abriu cursos novos que muito honram a sua obra, mas a triste realidade é que nos encontramos ainda muito longe de ocuparmos nesta matéria um lugar lisonjeiro em relação aos demais países da Europa. É corrente dizer-se que a mal saber soletrar é preferível nada saber, visto que tais letrados, mal digerindo o que conseguem ler, são mais perniciosos que os analfabetos. Também já se tem afirmado que somos um país de doutores. Esta afirmação faz-se, creio eu, para significar que nos faltam técnicos e cursos de especialidades , enveredando todos para o bacharelato ou licenciatura. Quer dizer, reconhece-se que além do saber ler se deve elevar a mentalidade do nosso povo a um mais alto grau, em cursos técnicos. Poderão conseguir-se tais desideratos com um reduzidíssimo número de escolas de artes-ofícios, agrícolas, industriais, etc. e com a exorbitância de propinas, certidões, etc., dos liceus, sem dúvida proibitivos para as classes pobres? Em todo o distrito de Castelo Branco, com uma população agrícola de mais de 70% da sua totalidade, não há uma escola rudimentar ou secundária de ensino agrícola e existe apenas uma Escola Industrial na Covilhã que em muito poderia ser melhorada. Para onde poderão então mandar seus filhos os pais pobres que desejem levá-los além da escola primária? Para o liceu? E quem lhes paga as propinas que hoje ascendem a centenas de escudos? Não pode admitir-se que, só porque é pobre, alguém fique pouco menos que analfabeto, ainda mesmo que tenha revelado grandes faculdades de inteligência. Mas, está já estabelecida a isenção de propinas, poderão objectar-me. É certo; mas em tão reduzido número e distribuídas por processo tão pouco prático que, além de não darem satisfação cabal ao fim que procuram atingir, se transformam por vezes em flagrante injustiça. Depois, além das propinas incomportáveis, vêm as multas e sobretaxas aplicáveis mesmo quando os alunos faltam aos exames por doença ou outros motivos justificados. Este actual regime, que não pode continuar num país de analfabetos, vai agravar-se ao que se anuncia, visto que, no intuito de seleccionar élites, pensa em dificultar o acesso aos cursos superiores, só devendo ser admitidos à frequência do 6º ano dos liceus e das universidades os alunos que no 5º a 7º obtenham mais de 12 valores. É por demais sabido de todos os que têm frequentado cursos, que muitos "músicos" afinados e até desafinados (deixem-me usar o calão académico) vieram para a vida prática com 12, 11 e até 10 valores, a demonstrar que nem sempre as classificações conseguem classificar pelo valor e mérito de cada um. (1) Depois do exposto; Considerando que em razão do seu analfabetismo, Portugal continua a ocupar entre os países civilizados um lugar de inferioridade; Considerando que a instrução deve ser igualmente acessível a pobres e ricos, prestando-se aos primeiros todo o auxílio de que precisarem, ministrando-lhe gratuitamente pelo menos o ensino primário e secundário; Considerando que a isenção de propinas deve abranger todos os que dela precisem sem limitação de número, dentro da regra de que é preferível concedê-la a quem a não precise do que recusá-la aos necessitados; Considerando que, a um país de analfabetos deve ser preferido um país de doutores, Considerando que o distrito de Castelo Branco, com mais de 70% da sua população total de agricultores, não tem qualquer rudimentar escola desta especialidade; Considerando que o mínimo de classificação que se pretende adoptar para a admissão aos cursos superiores não conseguirá o fim que tem em vista pelas desigualdades a que dará lugar, dada a diversidade de critérios que há nas classificações de liceu para liceu; Considerando que, a pôr-se em prática tal medida, ela provocará um mal não menor, que é o de os que não atingirem o mínimo que for estabelecido, irem avolumar o extraordinário número de candidatos ao emprego público; Considerando que a verdadeira solução está em facilitar a preparação técnica em escolas gratuitas; O V Congresso Beirão, defende: 1º. Que o combate ao analfabetismo prossiga com denodo pela criação de escolas e um bom recrutamento de professores, construção de edifícios escolares próprios e uma assistência efectiva aos pobres. 2º. Que se criem as escolas técnicas elementares e secundárias que forem precisas para descongestionar os liceus, admitindo gratuitamente à matrícula e à frequência todos os alunos, ricos, pobres ou remediados. 3º. Que ao distrito de Castelo Branco, com uma percentagem de agricultores de mais de 70% da sua população total, seja dada, ao menos, uma escola agrícola, sua velha aspiração. 4º. Que, enquanto não é possível instalar as escolas técnicas, sejam dispensados do pagamento de propinas nos liceus todos os que o requererem e provarem disso terem necessidade. (1) Já depois de composto este Memorial, publicaram os jornais um projecto de decreto tornando o exame de admissão às Universidades obrigatório para todos os que nela desejem ingressar, mesmo para os que os liceus tenham dado por aptos. Quer dizer, o aluno fará exame de 7º ano em Julho e de admissão em Outubro. Não terá férias de verão. Pelo primeiro paga 200$00. Se ficar aprovado, tirará a carta que custa 375$00 e para o exame de admissão dará 150$00. Como as Universidades têm as suas sedes em Lisboa, Porto e Coimbra, os candidatos têm que deslocar-se àquelas cidades e portanto que fazer despesas de viagem e de hospedagem durante os dias que tiverem que ali permanecer! Quer dizer, muitas centenas de escudos de despesa com que só ricos podem. Porque e para que esta duplicação de exames? Porque mais 150$00 para o Estado além das despesas de deslocação e hospedagem? Selecção de élites? Pelas habilitações, é inadmissível, pelo dinheiro, NÃO! (V Congresso Regional das Beiras - página 128 - Dr. Jaime Lopes Dias) Na página 130 da obra citada, podemos ler outra tese apresentada pelo Dr. Jaime Lopes Dias, a saber; Monografias Regionais Vem de épocas afastadas a tentativa de organização da história local pelas monografias das povoações e dos concelhos. Embora a bibliografia local portuguesa nesta matéria, seja já vasta, , a verdade é que há ainda muito a fazer, e obra bem meritória seria esta se viesse a completar-se e que muita luz poderia projectar em tantos pontos obscuros da história pátria. Porque assim é; Considerando que as tentativas neste sentido feitas pelo Estado tem resultado pouco menos do que inúteis; Considerando que os beirões, no sentido regional e no amor ao seu torrão, tem sabido marchar na vanguarda das demais províncias; Considerando que, mercê de pequenos estímulos, se conseguem por vezes obras muito proveitosas; Considerando que esta de historiar e estudar a vida das povoações beiroas será das mais profícuas para, cada vez mais, se incutir nas gerações que nos hão-de suceder o amor à nossa imortal terra onde nascei o espírito de independência da raça; O V Congresso Beirão, resolve: 1º. Que o organismo que ele venha a incumbir de executar as deliberações que aqui forem tomadas, promova a criação de três prémios, cuja importância fixará, a favor das três melhores monografias locais de terras das Beiras que venham a ser apresentadas ao VI Congresso. 2º. Que a soma dos prémios a instituir saia de uma percentagem sobre as receitas gerais com que os corpos administrativos contribuam para o referido congresso e de 10% da importância que for fixada para a inscrição dos Congressistas, os quais serão cobrados conjuntamente com ela. 3º. Que a apreciação das monografias seja confiada a escritores beirões de reconhecido mérito e a representantes das colectividades e associações literárias científicas do país e das associações de Jornalistas. 4º. Que a mesma Comissão seja escolhida na primeira sessão de trabalhos do VI Congresso sob proposta do organismo que for encarregado de dar execução às deliberações deste V Congresso, e apresente o resultado da sua apreciação, dentro de seis meses, ao Organismo que sair do VI Congresso , se outro permanente não existir já, para solenemente fazer a entrega dos prémios, e abrir novo concurso para o Congresso imediato.
Continuando a folhear " V Congresso Regional das Beiras", na página 226, pode ler-se: Assistência Social, Desastres, Código e Horário do Trabalho e Reforma dos Trabalhadores (Dr. Jaime Lopes Dias) Entre os factos inéditos em certames desta natureza, que imprimiram ao IV Congresso Beirão certo cunho de novidade, figurou, e foi devidamente registado, o da colaboração do operariado, que ali apresentou algumas das suas reivindicações . Sem qualquer espírito especulativo e antes devotadamente integrado no número, cada vez maior, dos que entendem que o problema social deve ser considerado acima dos demais, na hora que passa; sinceramente convencido de que contribuir para que a miséria de tantos, mercê das desigualdades e injustiças sociais, desapareça ou pelo menos seja atenuada, não duvido incluir neste memorial além de outras, as reivindicações que pelo operariado foram presentes ao IV Congresso e não foram ainda atendidas. Assim, mais uma vez os beirões e o governo, delas poderão tomar conhecimento, os primeiros para pugnarem pela sua realização e o segundo para as atender. No IV Congresso propôs-se a actualização da legislação sobre desastres no trabalho pela obrigatoriedade do pagamento de custas em todos os incidentes e execuções e actualização das tabelas de desvalorização que o Governo , pelo Decreto nº 4282 de 9 de Março de 1918, prometeu elaborar imediatamente; actualização das pensões e máximo de salário em relação à desvalorização da moeda e carestia da vida; proibição de , os responsáveis por desastres, venderem ou por qualquer forma comprometerem os seus bens ou valores; cumprimento da legislação respeitante ao trabalho das mulheres e dos menores nas fábricas e do horário de trabalho. Apelaram os operários para os homens de coração, para os homens bons e legalistas que se encontravam no IV Congresso. Repito o apelo deles, e, como eles, igualmente digo que, caso não se queira mudar a legislação, ao menos esta se cumpra exactamente como consta no Diário do Governo. Mas, além destes, outros problemas de interesse para as classes proletárias quero eu propor aos beirões aqui reunidos como: A necessidade da publicação do Código do Trabalho, que o Governo deverá efectuar quanto antes para regular eficazmente os direitos e deveres dos operários e dos patrões; A urgência da organização do serviço de reforma de todos os trabalhadores, operários, artistas e simples rurais, semelhantemente ao que está decretado para o funcionalismo; E , finalmente, pela acção de cada um dos senhores congressistas poder exercer no meio em que vive, a vantagem da criação, no maior número de localidades, de creches, lactários e maternidades para amparo e guarda dos filhos dos pobres, tantas vezes abandonados , do princípio ao fim do dia, em casebres inabitáveis, sem ar e sem luz. E, assim: Considerando que para pouco servem as leis quando não se cumprem; Considerando que são inteiramente justas as reivindicações apresentadas pelo operariado ao IV Congresso das Beiras; Considerando que, se os funcionários exercem a sua actividade em proveito do Estado, o trabalhador valorizando a riqueza privada que é a base da riqueza pública, igualmente deve merecer o cuidado do Governo; Considerando que muitos deles levam a velhice a esmolar depois de uma vida inteira de trabalho; Considerando que o definhamento que dia a dia se vai registando na nossa raça é em boa parte devido à miséria e ao abandono em que é criada a nossa infância; Considerando que nem todos os patrões usam de normas de correcção e humanitarismo para com os seus operários exigindo-lhes por vezes serviços incomportáveis com uma retribuição vexatória; O V Congresso da Beiras, resolve: 1º. Solicitar do Governo a satisfação das reclamações formuladas no IV Congresso sobre desastres no trabalho, trabalho das mulheres e menores nas fábricas e horário de trabalho. 2º. Pedir igualmente ao Governo que não demore a publicação de um Código de Trabalho que regule as relações entre operários e patrões e promova a organização dos serviços necessários para, quanto antes, ser um facto a reforma dos trabalhadores. 3º. Lembrar a todos os corpos administrativos, colectividades e agremiações, e a todos os beirões, a vantagem de, no maior número de localidades, serem criadas creches, dispensários e maternidades para protecção às crianças pobres. Na página 100 desta obra, podemos ler: Comunicações Telegráficas e Telefónicas (Pelo Dr. Jaime Lopes Dias) Nada há hoje mais cómodo para a comunicação entre as pessoas que vivem afastadas do que o telefone. Ele é sobretudo útil quando os assuntos a tratar exigem troca de perguntas e respostas ou esclarecimentos que o telégrafo só pode dar em duas ou mais comunicações. Por isso os povos insistem e pedem a rede telefónica como um dos maiores melhoramentos que a civilização pode conceder-lhes. A Câmara Municipal de Idanha-a-Nova compreendendo-o assim, chegou a projectar a montagem de uma rede adentro do seu concelho para comodidade e serviço dos seus munícipes e realizou um empréstimo; mas, como o Estado proibisse tais iniciativas, foi o dinheiro distribuído pelas freguesias que o aplicaram onde melhor lhes apeteceu. Ficando, como fica, Proença-a-Nova na passagem da linha que há-de ligar Tomar a Castelo Branco e Idanha-a-Nova na linha que há-de ligar Penamacor, sede de uma Unidade Militar, a Castelo Branco, impõe-se a montagem de uma e outra, servindo-se pelo menos as sedes destes concelhos e as povoações vizinhas das linhas. Acontece, porém, que o actual custo das instalações e das taxas anuais e de conversação são tão elevadas que a rede não se divulga como seria mister para comodidade e vantagem de tidos. Por sua vez as autoridades e corpos administrativos são obrigados ao pagamento das taxas comuns, o que os inibe muitas vezes de dele se servirem com manifesta desvantagem para os serviços que lhes estão confiados. Porque assim é, o V Congresso das Beiras resolve: 1º. Chamar a atenção do Governo para o problema das ligações telefónicas entre os diversos concelhos do país, a qual deverá ultimar-se o mais rapidamente possível e no distrito de Castelo Branco, especialmente para a linha que vindo de Penamacor ligue Idanha-a-Nova, Castelo Branco, Proença-a-Nova, Sertã a Tomar, que deverá ser a primeira a ser construída; 2º. Ponderar a conveniência de o custo das instalações e taxas anuais e de chamadas serem reduzidas; 3º. Pela grande vantagem que representa para os serviços públicos, às autoridades seja permitido autorizarem gratuitamente o telefone ou ao menos mediante o pagamento de uma taxa mínima. Na obra "IV Congresso e Exposição das Beiras" de 1929 - Jaime Lopes Dias, podemos ler na página 440: O Problema Económico Alguns males e remédios sob o ponto de vista agrícola A vida agrícola em Portugal É já velho entre nós aquele conceito atribuído a um estadista de que a agricultura é a arte de empobrecer alegremente; é de sempre em Portugal a afirmação de que o lavrador português é rotineiro, refractário ao progresso, e um dos principais responsáveis pelos seus próprios males e pelos do país. O que haverá de verdade nestas duas afirmações? Não há lavrador que depois de uma colheita má, de uma primavera desabrida que inutiliza as cearas, cresta os pâmpanos novos das videiras e impede a regular frutificação das oliveiras; depois de um verão tórrido que queima as novidades e as hortas; depois enfim de um ano mau, não diga: "nem sempre o demo há-de estar atrás da porta"; já foi má a colheita da azeitona, já no ano passado não houve vinho, o ano cerealífero apresenta-se mau, não hão-de ao menos os montados e o gado pagar bem? E fica-se à espera, desanimado mas não desesperado. Às vezes os montados não dão nem o gado produz, mas ainda o lavrador, desgostoso, quase desenganado, não desesperado, para se iludir, repete: pois será possível que haja ainda mais um ano mau? Foram péssimos os dois passados, não o vai ser, com certeza, o que começa. E, para que a vida possa ainda dar-lhe alegria e satisfação, não deixa de prosseguir na sua tarefa, pois lá diz o velho ditado "semeia e cria, terás alegria". "Que o lavrador português é retrógrado, rotineiro, e o principal responsável pelos males que o afligem" diz-se (1), porque teima em manter-se afastado do progresso, foge às inovações, aos novos métodos de cultura, produzindo assim a sua ruína e ajudando a da pátria que vê o oiro de que tanto precisa sair em grandes somas para a compra do pão estrangeiro. Em muitos assuntos, é incontestavelmente rotineiro o nosso lavrador, mas temos que fazer-lhe a justiça de que a maior parte das vezes não o é por teimosia, não porque o seu espírito não seja aberto a iniciativas, mas porque lhe falta o capital que só pode adquirir a juros incomportáveis, porque lhe falta quase toda a assistência que o Estado lhe deve desde o ensino às facilidades de transportes e comunicações e "desde a polícia à Justiça"; porque, como bem dizia, há já muitos anos, Jerónimo de Lima P. Sande e Castro "vive uma vida de anémico em luta constante com a terra e os elementos, o físico, o contrabando, as falsificações de todo o género e a falta de fiscalização" Pode ele assim (especialmente o médio e o pequeno) lançar-se em experiências falíveis, atacar de frente os grandes e importantes problemas de interesse individual e nacional como são os da hidráulica agrícola, o da arborização, e tantos outros que uma vez resolvidos lhe dariam o bem estar individual e transformariam economicamente o país? Não reconhecer culpas ao lavrador pela situação precária em que se encontra seria excessiva benevolência, equivaleria a falsear os factos. Por mim, considero-o culpado, mas não o único responsável. Na falta de capitais, como disse, mas também na passividade e na desconfiança da maioria, na pouca ilustração de muitos (e não suponham os que me lerem que estou a proferir heresias ou a ofender uma classe à qual me orgulho de pertencer) se encontram as principais causas das dificuldades que o assoberbam. Desperte o lavrador. Associe-se. Organize-se. E num país onde mais de 70% da população é de lavradores, ele só não remediará muitos dos seus males se não quiser. Acorde a lavoura. Exija do Estado ensino técnico, escolas; que os mestres que agora se acumulam nos grandes centros venham para a província ou, melhor, se proceda à descentralização do Ministério da Agricultura; represente ao Estado no sentido de, semelhantemente ao que se fez em França após a guerra (1914-1918), serem criadas Juntas Distritais Agrícolas de eleição dos lavradores (Offices Departementeaux et Regionaux Agricoles) que tão bons resultados ali deram, com a função de promoverem o progresso, a organização e a defesa da agricultura; tome ainda como modelo e exemplo de quanto vale a associação a grande Confederação Nacional Católica Agrária de Espanha; entre em plena colaboração com o Estado sob a condição de um perfeito e mútuo auxílio; veja o que pode fazer por si e faça-o, e tantos males que o afligem e que afligem o Estado desaparecerão, adquirindo a agricultura portuguesa o seu verdadeiro lugar porque, como bem diz Anselmo de Andrade "A agricultura é a nossa legítima função de trabalho" O Capital - Factor indispensável ao progresso da lavoura O Juro - Causa primordial da sua ruína Diz assim Oliveira Martins: "É necessário canalizar capitais para a terra porque, se o homem é o agente, se a árvore e a água são os colaboradores, se as leis são um coeficiente , o capital é o instrumento sem o qual os braços humanos cairiam inertes e impotentes." Rebelo da Silva escreveu: "As máquinas, os estrumes, os adubos, a drenagem, as plantações e os afolhamentos não se inventam com palavras. É necessário o dinheiro para tudo isto e a repugnância dos capitais para a lavoura eram ainda há pouco quase invencíveis e punham o maior obstáculo ao desenvolvimento da agricultura progressiva e reparadora". Que assim é sabem-no todos os lavradores, conhecem-no quantos vivem ou mourejam na agricultura. Progresso agrícola sem capital, sem os adiantamentos precisos para obras, máquinas, sementes e adubos, com colheitas problemáticas, com clima incerto, com preços variáveis igualmente incertos; progresso agrícola sem crédito pessoas, mobiliário para todos os lavradores em empréstimos a longo prazo e renováveis é utopia. Sublinhei "para todos os lavradores" porque para muitos já ele existe de há anos em Portugal como adiante se verá. Capital em abundância e capital barato eis uma das maiores necessidades dos lavradores portugueses, visto que, como bem demonstrado está "a deficiência do regime do capital continua a ser uma das causas do atraso da nossa economia interna". Houve tempo que em Portugal, como em quase todos os países da Europa, o juro era fixo; não podia ir além de uma taxa determinada por lei. Assim o determinava entre nós o Alvará 1699, assim o queria ainda o autor do projecto do Código Civil que o estabelecia no artº. 1728º. No Código apareceu porém princípio oposto (artº. 1640º.), consignando plena liberdade de juro. Dessa liberdade se usou e abusou como muito bem o constatam, entre outros, o Inquérito Parlamentar sobre as causas da Emigração e Projecto de Fomento Rural, de Oliveira Martins, o Portugal Económico e a Evolução da Moeda, de Anselmo de Andrade, etc. A grande vítima dessa liberdade foi o lavrador, que passou a pagar geralmente juros a 10, 12 e 15%, porque uma colheita perdida, a morrinha no gado, a própria justiça e os direitos de transmissão a que, em má hora, a morte o obrigam exigem sempre dinheiro, verba que, por imprevista não cabe no seu orçamento e que portanto tem que procurar fora. Quando a necessidade não é de urgência e lhe dá tempo de encontrar parente ou amigo que lhe acuda, bem vai, mas se morrem em poucos dias os porcos que tinha para engorda, se cai uma junta em plena sementeira, se vem uma trovoada ou um incêndio, se o trigo ameaça espalhar-se pela terra quando não há comprador para o vinho ou para o azeite, nem parente ou amigo que de momento acuda, então todas as taxas servem, 20, 25 ou mesmo 30%. E vendido o vinho ou azeite, a criação, os queijos, a lã e os porcos, verifica então que não apurou em toda a sua labuta 5%!!! Mas tem que pagar 20, 24 ou 30%!!! Pode assim viver o lavrador? É verdadeiramente impossível continuar neste estado porque fatalmente a propriedade portuguesa há-de chegar a um momento em que as condições de produtibilidade não serão suficientes para satisfazerem os encargos com que se acha onerada!!! Melhoramentos? Resolução dos grandes problemas de interesse geral como o da arborização, hidráulica, agrícola, etc.? Impossível ante a triste realidade dos factos!!! O que fazem então os lavradores? Muitos deles, fugindo, sem qualquer tentativa de defesa ou reacção, tomam o rumo da aventura, abandonam o lar, emigram acabrunhados, duplamente arruinados, moral e financeiramente, porque as despesas da viagem acabaram de comprometer-lhe o pouco que restava livre. Outros... continuam em vida atribulada, isolados, desconfiados, à espera dos... anos bons que raro chegam. ... Conclusões: Do exposto conclui-se: 1º Que a agricultura é a nossa legítima função de trabalho; 2º Que a apatia, a passividade do lavrador, a falta de espírito associativo são causas de muitos males que o atormentam; 3º Que se impõe a descentralização dos Serviços do Ministério da Agricultura por forma a ser prestada ao lavrador toda a assistência técnica e científica de que necessita e a que tem direito; 4º Que deveriam, como necessidade urgente, ser criadas Juntas Distritais e Regionais Agrícolas, da escolha dos lavradores, com funções organizadoras e protectoras da lavoura; 5º Que urge dotar o crédito agrícola com a verba precisa para dar satisfação a todos os pedidos de empréstimo, visto que não é possível o progresso económico do país sem que aos lavradores seja facultado capital a juro módico em empréstimos a longo prazo e renováveis; 6º Que o crédito agrícola, tal como se encontra organizado, satisfaz plenamente o fim que tem em vista tornando-se indispensável, sem falsas economias, dotá-lo com pessoal competente e suficiente para que o deferimento dos pedidos não sofra delongas, quase sempre prejudiciais; 7º Que os organismos que vierem a ser criados em cada distrito na organização regional da Beiras, ou a comissão que vier a ser escolhida para dar execução às conclusões deste IV Congresso promovam por todos os meios possíveis a propaganda do crédito agrícola entre os lavradores por forma a conseguir a criação de ao menos uma caixa de crédito agrícola mútuo em cada concelho.
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(Américo Valente - Pesquisas)