Vale da Senhora da Póvoa

Vale de Lobo

História

Américo Valente

Esta freguesia, que passou a ter o actual nome em 1957, a partir de 2 de Agosto, chamava-se anteriormente Vale de Lobo. Antes de pertencer ao concelho de Penamacor, estava integrada no Termo da Covilhã. Foi D. Fernando quem a integrou no concelho de Penamacor, cujo mandato foi confirmado por D. João I, em 1454.

Foral de Penamacor - 1209 (D.Sancho I) - Clique aqui 

 

 

 

 

 

     População das actuais freguesias do Concelho de Penamacor no século XVII

 

 

 

 

 

 

Freguesia

Orago

Concelho

Fogos

Habit

Penamacor

Srª. da Conceição

Penamacor

1.050

4.200

Pedrógão

S. Pedro

Penamacor

150

600

Águas

S. Marcos

Penamacor

50

200

Aldeia do Bispo

S. Bartolomeu

Penamacor

70

280

Aranhas

Nossa Senhora da Penha

Penamacor

40

160

Meimão

S. Salvador

Penamacor

70

280

Meimoa

Sª. da Conceição

Penamacor

50

200

Vale de lobo

S. Tiago

Penamacor

100

400

Benquerença

Sª. das Neves

Penamacor

60

240

Bemposta

Sª. da Silva

Bemposta

90

360

Salvador

Sª. da Oliveira

Monsanto

36

144

Aldeia de João Pires

Santa Maria Madalena

Monsanto

140

360

 

RENDIMENTO DE ALGUMAS IGREJAS VIZINHAS EM 1321

Localidade

 Libras

Santo Estêvão

80

Santiago (Penamacor) 120
S. Pedro (Penamacor) 60
S. João (Penamacor) 60
Meimão 10
Aranhas 15
Meimoa 20
Salvador 30
Aldeia de João Pires 25
Aldeia do Bispo 20
Benquerença 40
Vale de Lobo 30

                                                                                                            

O CONCELHO DE PENAMACOR NA

GUERRA DA INDEPENDÊNCIA

1383-1385

Depois da morte de D. Fernando e de acordo com o contrato nupcial de sua filha D. Beatriz, assumiu a regência do Reino a rainha viúva D. Leonor Teles, que a pedido do seu genro D. João I de Castela, mandou expedir cartas para as principais terras determinando a aclamação de D. Beatriz e seu marido reis de Portugal. O povo revoltou-se, e, segundo Fernão Lopes, a multidão em Santarém gritou; Viva o Infante Dom Joham (filho de Inês de Castro) viva; oo quem nollo hora aqui desse, e veeriamos quem seria ousado le apregoar arreal por a rainha de Castella, pera nos tornarmos agora Castellaãos.

O movimento revolucionário popular eclodiu, organizado por Álvaro Pais, que não era um burguês no sentido económico-social do termo, mas um funcionário, oriundo das classes populares, a quem D. Fernando, em paga dos seus bons serviços, dera honra e acrescentamento. Leonor Teles, depois da morte do seu favorito o Conde de Andeiro, e da aclamação popular do Mestre de Avis pelo povo de Lisboa, foge para Alenquer, e depois para Santarém, de onde pede ao genro a invasão do país. Vai começar a luta, que será financiada pelos burgueses das cidades. Vão pedir auxílio à Inglaterra, por intermédio de D. Fernando Afonso de Albuquerque e Lourenço Anes Fogaça. O Bispo da Guarda, D. Afonso Correia, que acompanhara D. Beatriz a Castela, facilita a entrada do rei castelhano pelas suas terras em 1384. Daí segue para Santarém onde se encontrava a regente, que renunciou ao governo, a favor da filha e do genro, e partiu para Tordesilhas. O rei castelhano segue para Lisboa a fim de lhe pôr cerco, passando pelo Bombarral e vindo instalar-se no Lumiar.

Lisboa bem armada e com mantimentos resistiu ao cerco, até que os víveres começaram a faltar. A peste que grassava no arraial castelhano acabou por atacar a rainha, e o rei castelhano resolveu partir. Poucos meses depois já estava em Sevilha.

Após o cerco de Lisboa, o Mestre de Avis marchou para Sintra e Almada, cujos habitantes se lhe entregaram. Nuno Álvares Pereira, no Alentejo, igualmente submeteu algumas terras que estavam do lado castelhano.

Finalmente as cortes de Coimbra de 1385, puseram fim ao interregno, aclamando o Mestre de Avis Rei de Portugal.

Depois deste resumo sobre o Interregno, consultemos documentos para maior precisão dos acontecimentos que naquele tempo tiveram lugar, nomeadamente no tocante ao concelho de Penamacor, a que Vale de Lobo pertencia desde o reinado de D. Fernando (1345-1383)

 Eis o que nos conta o cronista Fernão Lopes na “Crónica de D. João I – Cap LXVIII, escrito em português actual:

Dos Lugares que aderiram a Castela

El-Rei de Castela teve grande parte do reino às suas ordens, em todas as comarcas. Não, porém, que os povos lhe dessem os lugares onde moravam, nem lhe obedecessem por vontade; mas os alcaides e os mais importantes de cada lugar lhos ofereciam e tomavam partido por ele.

Assim fez Lopo Gomes de Lira, em Braga, que se intitulava meirinho ao serviço d’El-Rei de Castela; que prendendo os moradores e as pessoas eclesiásticas do Cabido da Sé, os obrigou a fazerem menagem ao Arcebispo de Santiago, em nome d’El-Rei de Castela, a tomarem o seu partido e a obedecerem-lhe como ao seu senhor, e aqueles que o não quisessem fazer, que os degredava do senhorio dos Reinos de Portugal, e que perdessem os bens. Além disso eram dominados pelo Castelo que está sobre a cidade, de que era alcaide Vasco Lourenço, irmão de Lopo Gomes. E eles todos, com temor, fizeram como ele quis.; e, desta maneira e de outras semelhantes, se entregavam os povos, mas não de vontade.

Embora o amor da terra e natural afeição constrangessem muitos fidalgos e alcaides a preferirem Portugal a Castela, havia outros, porém, que usando de cobiça misturada com má intenção, e muitos com temor e receio de cada qual perder sua honra, para cobrarem outras ainda maiores do que aquelas que tinham, foram levados a escolher o contrário; de tal modo que o reino ficou dividido em duas partes. E muito poucos lugares e fidalgos tomaram o partido do Mestre para o ajudar, e todos os outros se deram a El-Rei de Castela, obedecendo às suas ordens; assim, pelas comarcas do Reino, estavam por ele (Rei de Castela) as seguintes fortalezas:

 Na Estremadura:

Santarém, Torres Novas, Ourém, Leiria, Montemor-o-Velho, Castelo da Feira, Penela, Óbidos, Torres Vedras, Alenquer e Sintra;

 Entre Tejo e Guadiana:

Olivença, Arronches, Alegrete, Castelo de Vide, Vila Viçosa, Portel, Noudal, Mértola, Almada, Crato, Amieira, Monforte e Campo Maior;

Entre Douro e Minho:

Lanhoso, Braga, Guimarães, Valença, Melgaço, Ponte de Lima, Vila Nova de Cerveira, Caminha, Viana, Castelo de Neiva;

 Trás-os-Montes:

Bragança, Vinhais, Chaves, Monforte de Rio Livre, Montalegre, Mogadouro, Mirandela, Alfândega, Lamas de Orelhão, Vila Real de Panóias;

Na Beira:

Castelo Rodrigo, Almeida, Sabugal, Monsanto, Penamacor, Guarda, Covilhã, Celorico e Linhares;

Estes cinquenta e quatro lugares e outros de que não vale a pena falar, teve El-Rei de Castela às suas ordens, antes de entrar no Reino de Portugal. E embora os ricos e poderosos, tanto alcaides de castelos como outros fidalgos, tomassem partido  por El-Rei de Castela, porém, todos os povos em seus corações estavam contra ele e contra a rainha; de modo que havia muitos levantamentos e tomavam os castelos aos respectivos alcaides, tomando partido pelo Mestre de Avis e escrevendo-lhe que queriam ser dele e ajudá-lo com seus corpos e haveres.

Assim tomaram Évora, a Álvaro Mendes de Oliveira, Estremoz a João Mendes de Vasconcelos, e Beja e outros lugares.

E àquelas vilas que tinham o partido de Castela, mandava El-Rei quantas gentes de armas via serem necessárias. E das fortalezas fiéis a Castela saíam os alcaides portugueses a fazer grandes roubos e cavalgadas nos limites dos que eram partidários do Mestre, prendendo, roubando e matando neles; assim, aqueles que deviam ser seus defensores e livrá-los das mãos dos inimigos, esses mesmo os matavam e perseguiam, usando contra eles toda a crueldade. Oh! Que forte coisa e mortal guerra de ver, uns portugueses quererem destruir outros! E aqueles que um ventre gerou e uma terra criou desejarem matar-se sem que a isso nada os obrigasse e derramarem  o sangue de seus amigos e parentes!

Depois de lido este documento, ficamos a saber que o Castelo de Penamacor era partidário do Rei de Castela. No entanto, não podemos dizer o mesmo da Vila nem das aldeias que faziam parte do seu concelho.

Vejamos o que nos diz Fernão Lopes no Capítulo CLXII:

Alguns lugares que tomaram o partido de Portugal

Convém que perguntemos à cidade de Lisboa: Ó mui nobre cidade de Lisboa, vida e coração deste Reino, purgada de todas as fezes no fogo da lealdade, quais foram os confessores que te fizeram clara, entre as gentes, comungando dos teus propósitos, sem neles desfalecer tal fé.

E ela (Lisboa), respondendo, pode dizer deste modo:

Os que comigo sustentaram ser o Papa Urbano o verdadeiro pastor da Igreja, e o Mestre Regedor e Defensor destes Reinos, foram a boa e leal cidade do Porto, que muito trabalhou comigo neste tão forte negócio, ministrando grandes ajudas e despesas, para manter a verdade que eu defendia; e, com ela, Coimbra, Évora, Guarda, Viseu, Lamego, a cidade de Silves, Castro Marim, Tavira, Faro, e outros lugares daquele Reino do Algarve, Sines, Santiago do Cacém, Moura, Serpa, Évora-Monte, Estremoz, Castelo de Vide, Avis, Montemor-o-Novo, Palmela, Setúbal, Almada, Ameeira, Sertã, Penamacor, Pinhel, Monsanto, Trancoso, Linhares, Lousã, Celorico, Moncorvo,, Miranda, Freixo de Espada à Cinta, Vila Flor, Castelo Branco, Nisa,  Almourol, Marialva, Celorico de Basto, Abrantes, Tomar, Soure, Pombal, Alcanede, e algumas outras semelhantes a estas. E todas as outras me desampararam, umas por falta de coragem, algumas devido a portugueses desleais, outras por força de tormentos que não puderam suportar, fazendo umas tanto escárnio de mim.

E eu, assim, viúva e desconsolada, não tendo quem me amparasse senão o Mestre, meu Senhor e esposo, em quem depositava minha grande confiança e esperança, juntaram-se todos na cidade de Coimbra e ali me receberam com ele publicamente, dando-me por senhor e Rei, ao qual sempre entendo servir e amar e ser muito obediente, não só a ele mas a todos quantos dele descendem, em quaisquer coisas que me mandar e o meu bom desejo possa abranger.

Por aqui pudemos ver que a Vila de Penamacor estava ao lado do Mestre de Avis, mas não evitou ser conquistada pelo Rei de Castela, tendo voltado a ser portuguesa depois de terminada a guerra e o Mestre de Avis ter sido aclamado Rei de Portugal.

Vejamos, pois, como a vila de Penamacor e aldeias do seu concelho foram entregues a Portugal:

No capítulo CLXXXVI, Fernão Lopes escreve o seguinte:

Como foi feita trégua por dez anos e com que condições

Tornou o Doutor Martim Dossen a Castela e, finalmente concordaram (portugueses e castelhanos) numa trégua de dez anos, a saber:

Que nem El-Rei de Castela, nem os seus herdeiros fariam guerra por parte da rainha D. Beatriz nem do Infante D. Diniz que se intitulara rei, nem lhes consentissem que a fizessem com gente de outra nação ou da sua. Outrossim, que cada reino entregasse ao outro todos os lugares tomados, a saber:

Portugal entregaria a Castela:

Badajoz, Tuy, Salvaterra, São Martinho.

 Castela entregaria a Portugal:

Bragança, Vinhais, o Castelo de Piconha, Miranda, Penamacor, Penha Garcia, Segura, Noudal;

 Os quais deviam ser entregues do seguinte modo:

Que certos dias após a publicação destas tréguas, fossem postos como reféns, em poder do Condestável ou de quem tivesse o seu poder, na ribeira entre Vila Viçosa e Olivença, D. Álvaro Pires de Gusmão, Justiça-mor de Sevilha (entidade máxima para os negócios eclesiásticos e justiça), o Marechal Diogo Fernandes, alcaide-mor de Córdova; e Gomes Soares, primogénito legítimo de D. Lourenço Soares, mestre de Santiago. E desde o dia em que lhe (ao condestável) fossem entregues (os reféns), até aos vinte dias seguintes, El-Rei de Portugal entregasse a cidade de Badajoz ao mestre de Santiago, livre e desimpedidamente; e, entregue Badajoz no prazo de dois meses, El-Rei  de Castela entregasse (aos portugueses) Bragança, Vinhais, Piconha e Noudal, depois de retirar os abastecimentos e engenhos de guerra que lá estivessem. E que, desde a entrega daquelas quatro léguas até vinte dias depois, o condestável restituísse os três reféns, no mesmo lugar onde os recebera. E, entregues tais reféns, desde esse dia até um mês, El Rei de Portugal fosse obrigado a entregar, no mesmo lugar, ao Mestre de Santiago outros (reféns ) de seus Reinos: João Mendes de Vasconcelos, irmão de Dom Mem Rodrigues, Mestre de Santiago de Portugal; Gonçalo Pereira, primogénito de Dom João Rodrigues Pereira; e Vasco Fernandes, primogénito legítimo de Gonçalo Vasco Coutinho, marechal de Portugal; e que, entre o dia em que fossem entregues até aos quarenta seguintes, fossem entregues, a El-Rei de Portugal, Miranda, Penamacor, Penha Garcia, Segura. E no prazo de mais um mês, fossem entregues (pelos portugueses) Salvaterra, Tuy e São Martinho. E feitas tais entregas, voltassem os portugueses para donde haviam sido levados como reféns. E, nesse mesmo dia e lugar, fossem entregues todos os que, da parte de Castela, haviam sido postos como reféns das tréguas de dez anos. E que, feitas tais entregas, logo fossem soltos todos os prisioneiros de ambos os Reinos. E, porquanto El-Rei de Castela disse que lhe aprazia, findas as entregas no prazo de seis meses, falar-se na paz, na última semana dos ditos seis meses notificaria El-Rei de Portugal, sobre quais as pessoas que tratariam do assunto. E, deste modo, cessou então a guerra entre Portugal e Castela.

Como acima ficou demonstrado, Vale de Lobo, terá passado um mau bocado com as escaramuças que naquela região terão acontecido. Foi temporariamente castelhano, mas foi sol de pouca dura. Em 1385 era português, pertencente ao concelho de Penamacor, confirmado por D. João I, o Mestre de Avis.

 

INTERROGATÓRIOS PARA A ORGANIZAÇÃO DO DICIONÁRIO GEOGRÁFICO

DO PADRE LUIS CARDOSO

1758

  (Mandados pelo Governo de Marquês de Pombal aos párocos depois do terremoto de 1755)

  O que se procura saber dessa terra, é o seguinte:

Venha tudo escrito em letra legível e sem breves

Val de Lobo

Em que Província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence?

Está na Província da Beira, Bispado da Guarda, Comarca de Castelo Branco, freguesia de São Tiago, Termo  de Penamacor.

Se é D’El Rey, ou de donatário, e quem o é ao presente?

É D’El Rey

Quantos vizinhos tem, e o número de pessoas?

Tem fogos cento e doze, regular de confissão e comunhão duzentas e setenta e duas; só de confissão setenta e quatro e crianças quarenta

Se está situada em campina, vale ou monte, e que povoações se descobrem dela, e quanto dista.

Está situada em vale. Dela se vê para a parte do levante o lugar de Santo Estêvão, meia légua de distância; e para o sul, o lugar da Benquerença, longe uma légua.

Se tem Termo seu, que lugares ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem?

Nada

Se a paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, todos pelos seus nomes.

A paróquia está dentro do Lugar; cá e mais nada.

Qual é o seu orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas, e de que santos?

O orago desta freguesia é São Tiago. A Igreja tem quatro altares. O altar mor em que está da parte direita São Tiago e da esquerda Santo António e outro altar da parte direita dedicado à Senhora do Rosário, e da mesma parte outro das Almas; (...)Cristo cruxificado e da parte esquerda um dedicado ao Espírito Santo, tem duas naves e Irmandades quatro. Uma das Almas, outra do Espírito Santo, outra da Senhora da Póvoa, e outra de S. Sebastião.

Se o pároco é cura, vigário ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem?

O pároco é cura apresentado pelo prior da Moita e da apresentação do padroado será o seu rendimento duzentos mil réis para o prior e o cura é o que ajusta com o mesmo prior. É o que manda opa (?) de altar.

Se tem beneficiados, quantos, e que renda têm, e quem os apresenta?

Nada

Se tem conventos, e de que religiosos, ou religiosas, e quem são os seus padroeiros.

Nada

Se tem hospital, quem o administra e que renda tem?

Nada

Se tem Casa de Misericórdia, e qual foi a sua origem, e que renda tem; e o que houver notável em qualquer destas coisas?

Nada

Se tem algumas ermidas, e de que santos, e se estão dentro ou fora do Lugar, e a quem pertencem?

Tem duas ermidas e uma Igreja caída que foi matriz, e uma capela de Nossa Senhora da Póvoa, e tem mais a imagem de Santa Sabina, está fora do lugar meia légua; e outra de S. Sebastião e tem mais a imagem de Santo Antão.

Se acode a elas romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes?

Tem a Senhora da Póvoa muita gente em romaria em todo o decurso do ano e o maior concurso é na segunda e terça do Espírito Santo.

Quais são os frutos da terra, que os moradores recolhem em maior abundância?

Os frutos que nesta terra se colhem mais é azeite, centeio e trigo, e linho e vinho; o mais é centeio e azeite.

Se tem Juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta?

Está sujeita ao Juiz de Fora de Penamacor; e tem dois juizes idóneos.

Se é couto, cabeça de concelho, honra, ou behetria?

Nada.

Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas?

Nada.

Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, se é franca ou cativa?

Nada.

Se tem correio, e em que dias da semana chega, e parte; e se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra aonde ele chega?

Depende do Correio de Penamacor, que dista duas léguas.

Quanto dista da cidade capital do Bispado, e quanto de Lisboa, capital do Reino?

Dista da cidade da Guarda capital deste Bispado seis léguas, e de Lisboa quarenta e duas.

Se tem alguns privilégios, antiguidades, ou outras coisas dignas de memória?

Nada.

Se há na terra ou perto dela alguma fonte, ou lagoa célebre, e se as suas águas têm alguma especial qualidade?

Nada

Se for porto de mar, descreva-se o sítio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir?

Nada

Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação.

Nada

Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em que, e se está a ser reparada?

Nada padece da ruína do terramoto do ano de 1755.

E tudo o mais, que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório.

Nada.

 O que se procura saber dessa Serra é o seguinte:

Como se chama?

Tem duas uma chamada do Pa ao poente outra ao nascente chamada o Abrunhal

Quantas léguas tem de comprimento e quantas tem de largura?

A Serra do Pa terá meia légua de comprimento e um quarto de largura, o Abrunhal terá de largo e comprido meio quarto de légua.

Os nomes dos principais braços dela?

Os braços da Serra um para a parte do norte chamado o Paraíso, outro para poente chamado os Fiéis de Deus; a do Abrunhal, a breda dos marcos e o outro a Morgada.

Que rios nascem dentro do seu sítio, e algumas propriedades mais notáveis deles; as partes para onde correm e aonde fenecem.

Da Serra do Pa não sai rio nem do Abrunhal.

Que vilas e lugares estão assim na Serra, como ao longo dela?

Na Serra do Pa à parte do nascente junto ao sopé da serra está Val de Lobo à parte do nascente; e do poente está o Casteleiro e ao norte o lugar da Mouta.

Se há no seu distrito algumas fontes de propriedades raras?

Nada

Se há na Serra minas de metais, ou canteiras de pedras, ou de outros materiais de estimação?

Nada

De que plantas ou ervas medicinais é a serra povoada, e se se cultiva em algumas partes, e de que géneros de frutos é mais abundante?

Toda a cultura de uma e outra parte dá searas de centeio e trigo, e tem hortas com mais frutos.

Se há na Serra alguns mosteiros, igrejas de romagem, ou imagens milagrosas.

Está no fundo da Serra do Pa a capela da Senhora da Póvoa, igreja de muita romagem e imagem muito milagrosa.

A qualidade do seu temperamento?

O temperamento é quente e saudável.

Se há nela criações de gados, ou de outros animais ou caça?

Cria gado grosso e miúdo e caça miúda e montês

Se tem alguma lagoa ou fojos notáveis?

Tem no princípio para a parte do norte volto ao nascente um lameiro por nome Ameal que tem cinco ou seis fontes que nunca secaram e da água se regam muitas fazendas.

E tudo o mais que houver digno de memória?

Nada.

O que se procura saber do rio dessa terra é o seguinte:

Rio

Como se chama, assim o rio, como o sítio onde nasce?

Corre junto do mesmo lugar uma ribeira que nasce na Serra do Mosteiro, no Sítio da Mina, limite de Santo Estêvão, até ao lugar da Benquerença.

Se nasce logo caudaloso, e se corre todo o ano?

No seu nascente corre todo o ano, no mais seca.

Que outros rios entram nele, e em que sítio?

Nada

Se é navegável e de que embarcações é capaz?

Nada

Se é de curso arrebatado, ou quieto, em toda a sua distância, ou em alguma parte dela?

Corre quieto

Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente?

Corre de norte a sul

Se cria peixes, e de que espécie são os que traz em maior abundância?

Cria alguns peixes pequenos

Se há nele pescarias, e em que tempo do ano?

Nada

Se as pescarias são livres, ou de algum senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele?

É livre

Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto, ou silvestre?

As duas margens de centeio, e trigo e tem ao redor oliveiras e carvalhos.

Se tem alguma virtude particular as suas águas?

Nada

Se conserva sempre o mesmo nome, ou o começa a ter diferente em algumas partes, e como se chamam estas, ou se há memória de que em outro tempo tivessem outro nome?

O nome é Ribeira de Vale de Lobo e contorna o mesmo.

Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este, e o sítio em que entra nele?

Entra na Meimoa e esta no Rio Zêzere.

Se tem alguma cachoeira, represa, levada, ou açudes que lhe embaracem ser navegável?

Nada

Se tem pontes de cantaria, ou de pau, quantas, e em que sítio?

Tem uma ponte de pau na passagem para a Meimoa.

Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras, ou outro algum engenho?

Tem esta ribeira de onde principia até à Benquerença quatro lagares de azeite e quatro moinhos.

Se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias.

Nada

Se os povos usam livremente das suas águas para a cultura dos campos, ou com alguma pensão?

São livres as águas para os moradores.

Quantas léguas tem o rio, e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba?

Tem desde o seu nascente até à Ribeira da Benquerença duas léguas.

E qualquer outra coisa notável que não vá neste interrogatório?

Nada

 Val de Lobo, 26 de Abril de 1758

Manuel Martins do Olival

Cura do dito lugar

 

 

COROGRAFIA PORTUGUESA

DESCRIÇÃO TOPOGRÁFICA

DO FAMOSO REINO DE PORTUGAL

TOMO II – 1868

  OFERECIDO AO SERENÍSSIMO REI D.JOÃO V

Padre António Carvalho da Costa

  Na página 269 desta obra, podemos ler o seguinte:

  Cap. VII

  Da Vila de Penamacor

Oito légoas ao nordeste de Castello Branco, quatro de Sabugal para sul & três ao nornoroeste de Monsanto, hem hum alto penhasco tem seu assento a Villa de Penamacôr, que fundou El Rey D. Sancho, o primeiro de Portugal pelos anos de 1189 & lhe deo foral. He Praça de Armas, cercada de muros com vistoso castello, que mandou fazer D. Gualdim Paes, Mestre dos Templários; tem voto em Cortes com assento no banco onze, e são suas Armas, huma Espada, & huma Chave. Foy cabeça de Condado, cujo título deo El-Rey D. Afonso o quinto a D. Lopo de Albuquerque; he seu alcayde mór Luiz de Vasconcellos & Sousa, terceiro Conde de Castello Melhor. Tem 1050 visinhos com nobreza, divididos por trez freguesias, a saber, S. Maria, Priorado da Collação ordinária, com 76 visinhos, S. Pedro, priorado da mesma apresentação com 50; & Santiago, vigayraria da collação ordinária com 924. Há na dita Igreja de S. Maria hum beneficio simplez que apresentão os bispos da Guarda. Tem mais casa de Misericórdia, Hospital, & estas ermidas, S. Domingos da Sobreira, S. João, S. Estêvaõ & S. André, & hum convento de frades capuchos da Província da Soledade.

He esta villa abundante de pão, vinho, azeite, gado, caça, linho & colmeas, & tem no seu termo os seguintes lugares com suas igrejas parroquiaes:

Pedrogaõ, curado anexo à Igreja de S. Pedro de Penamacor que apresenta o Prior della, tem 150 visinhos & cinco ermidas.

Águas, curado, que apresentam os fregueses, tem 50 visinhos.

Aldeia do Bispo, curado, que apresenta a Mitra, tem 70 visinhos & duas ermidas.

Aranhas, curado collado que apresentaõ os moradores, tem 40 visinhos & duas ermidas.

Meimaõ, priorado do padroado Real, tem 70 visinhos & duas ermidas.

Meimoa, vigayraria, que hoje lhe dão o nome de priorado da Ordem de S. Bento de Aviz, que apresenta a Mesa da Consciência, tem 50 visinhos & duas ermidas.

Vale de Lobo, curado anexo ao priorado do Lugar da Mouta, que apresenta o prior, tem 100 visinhos & duas ermidas.

Benquerença, priorado que apresenta o cabido da Sé da Guarda, tem 60 visinhos & duas ermidas.

 

Vale de Lobo

Orago: Santiago

Fogos: 95

Diocese: Guarda

Correio: Idanha-a-Nova

Concelho: Penamacor

 

 

 

DICIONÁRIO HISTÓRICO, CHOROGRAPHICO, BIOGRAPHICO, HERALDICO E ARTÍSTICO

  Volume II – 1915

Na página nº 285 deste dicionário, pode ler-se o seguinte:

Vale de Lobo: Povoação e freguesia de S. Tiago, da Província da Beira Baixa, concelho de Penamacor, comarca de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, Bispado da Guarda; 153 fogos e 608 habitantes. Tem escolas de ambos os sexos e estação postal. Está situada num vale, na estrada de Penamacor a Maçaínhas de Belmonte, a 15 Kms da sede do concelho. É pouco fértil em cereais, mas abundante em frutos; cria muito gado de toda a qualidade, e tem grande quantidade de caça grossa e miúda. Pertence à 2ª Divisão Militar e ao Distrito de Recrutamento nº 21 com sede em Castelo Branco.

 

DICIONÁRIO COROGRÁFICO DE

PORTUGAL CONTINENTAL E INSULAR

Volume XII – 1940

 Américo Costa

 Vejamos agora o que nos diz este dicionário na página nº 125

Vale de Lobo: Povoação e freguesia de Saint’Iago, concelho de Penamacor, comarca de Idanha-a-Nova, distrito administrativo de Castelo Branco, Bispado da Guarda, relação de Coimbra (pertenceu à relação de Lisboa até à criação da de Coimbra), Província da Beira Baixa.

Pertence à 3ª Região Militar e ao 15º Distrito de Recrutamento e Mobilização com sede em Castelo Branco.

Antes da criação das Regiões Militares fazia parte da 2ª Divisão e do 21º Distrito de Recrutamento com sede na referida cidade.

Tem Posto de Correio, dois lagares de azeite, fábrica de cerâmica, posto de Registo Civil.

O Serviço de Correio é feito pela estação de Penamacor.

A antiga freguesia de Saint’Iago de Vale de Lobo era curado da apresentação do Reitor de Moita. Mais tarde foi Vigararia.

Está situada a cerca de 5 Kms ao norte de Ribeira da Meimoa, no caminho de Santo Estêvão para a Benquerença, no vale entre as serras de Malcata e da Guardunha:

A 14,7 Kms aproximadamente a nornoroeste da sede do concelho por caminho;

A 66,2 Kms aproximadamente a nornordeste da sede do distrito, sendo 14,7 Kms por caminho, os restantes são por estrada.

É composta do lugar de Vale de Lobo e de um Casal no Sítio do Arraial da Senhora da Póvoa.

É servida de caminho de ferro pela estação da Fatela - Penamacor B.B. a 38,8 Kms aproximadamente.

O movimento da população desta freguesia desde a publicação da 1ª edição da Corografia Portuguesa, do Padre Carvalho até ao último recenseamento, é o seguinte:

  Ano Fogos Habit
Est. Paroquiais 1862 103 407
Est. Civil 1864 103 387
Padre Carvalho 1868 98  
Censo 1890 139 539
Censo 1900 153 610
Censo 1911 177 672
Censo 1920 199 731
Censo 1930 224 866
  Ano Fogos Habit
Censo 1940 265 981
Censo 1950   1094
Censo 1960   975
Censo 1970   605
Censo 1981   429
Censo 1991   388
Recenseamento 1996   471
Censo 2001   333

 

                                                                                                                  

1939

  (O Concelho de Penamacor de José Manuel Landeiro – 1939)

A fábrica de lanifícios de Rosa Jacinto de C. Veiga, da Covilhã, ainda em 1819, tinha nesta aldeia (Vale de Lobo) e nas de Santo Estêvão e Casteleiro, escolas de cardagem e fiação onde se ocupavam 328 pessoas, homens, mulheres e rapazes. (Subsídios para a Monografia da Covilhan, de Artur Moura Quintela). Ainda hoje, nesta freguesia de Vale de Lobo, se encontram teares  de sistema antigo a funcionar. O Padre Carvalho da Costa diz-nos ser esta povoação curado anexo ao priorado da Moita que apresenta prior.

Tinha nessa altura (1868) uma centena de vizinhos e duas ermidas. As ermidas desapareceram. Tem somente a Igreja Matriz com o seu velhinho campanário, (ver foto) o único existente no concelho.

Pertence a esta freguesia a ermida da Senhora da Póvoa.

Esta povoação é servida por uma estrada (macadame) que a liga à sede e ao vizinho concelho do Sabugal.

 

 

Foi durante muitos anos abastecida de água por fontes de mergulho, como sejam a Fonte Santa (Ver foto) e a Fonte da Lameira.

Hoje tem artísticos chafarizes, lavadouros higiénicos e um marco fontanário, vindo toda a água de um sítio denominado Amial.

O cemitério tem à frente um encantador jardim. Possui um charco de águas sulfurosas e a nascente está situada perto da ermida de Nossa Senhora de Fátima

 

                                                                                

Vale da Senhora da Póvoa

 Américo Valente

 1996

Aldeia situada no concelho de Penamacor, distrito de Castelo Branco, Bispado da Guarda, na Beira Interior.

Dista da sede do concelho (Penamacor) 18,5 Kms.

Dista da sede do distrito (Castelo Branco) 68 Kms.

Dista da sede do Bispado (Guarda) 42 Kms

Dista de Lisboa 300 Kms.

 

É servida pela Estrada Nacional nº 233, que liga Penamacor, Meimoa, Vale da Senhora da Póvoa, Terreiro das Bruxas, Santo Estêvão, Sabugal, asfaltada na década de 1960, pois até essa data era em macadame. Era servida pela estação dos caminhos de ferro  da Fatela e pela empresa de Camionagem “Geraldes”. Uma viagem de Vale de Lobo a Lisboa, na década de 1950, demorava 11 horas, assim distribuídas: Saída de Vale de Lobo na camioneta de carreira até à Fatela (2H30); Comboio da Fatela até Lisboa (Santa Apolónia) (8H30), o que dava um total de 11 horas de viagem.

Actualmente (1996) há vários transportes de Vale da Senhora da Póvoa a Lisboa:

Viagem directa de camioneta “Viuva Monteiro” que demora cerca de 6 horas;

Viagem na Rodoviária Nacional directa a Lisboa, ou com transbordo em Castelo Branco, podendo fazer o resto do percurso de comboio.

 

 

Américo Valente - Pesquisas

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