Vale da Senhora da Póvoa

(Vale de Lobo)

Usos e Costumes

  Folias

 

 

Uma das festas tradicionais que se realizavam em Vale de Lobo , eram as Folias, festas dedicadas ao Espírito Santo, e, o Dr. Jaime Lopes Dias, na sua obra “Etnografia da Beira”, na página 85, Volume I, em 1944, escreve o seguinte:

 Vem de tempos distantes a devoção e as festas em honra do Espírito Santo.

Instituídas em Alenquer pela Rainha Santa Isabel, difundiram-se e arreigarram-se por tal forma no nosso país que as próprias providências régias contra os bodos se curvaram perante elas, consentindo-lhes o que a nenhumas outras era permitido.

E por isso, se muito raras são as povoações que o não adoram em capela própria ou em altar privativo na Igreja Matriz, igualmente em muitas se mantêm , como forma de adoração, velhos usos que, na sua origem, devem filiar-se em antigos cultos politeísticos.

Quem, ainda hoje, em qualquer dos domingos ou dias santificados que vão da Ressurreição ao Pentecostes, percorrer algumas povoações do distrito de Castelo Branco, encontrará vestígios, mais que evidentes desse culto, na folia, espécie de confraria, meio sagrada, meio profana, instituída para implorar a protecção divina contra pragas e malinas que às vezes infestavam os campos.

Banido do seu ritual e indumentária o que tinha de mais irrisório, a folia compõem-se de um rei, um pajem, um alferes, dois mordomos e seis fidalgos. Tem uma bandeira com sua oleografia ou bordado onde o Espírito santo é representado por uma pomba, uma varinha de madeira guarnecida com fitas de seda e flores artificiais, e uma coroa de lata igualmente ornamentada com fitas e flores.

O rei leva a varinha, o alferes a bandeira, o pajem a coroa, os mordomos cada um sua lanterna, um dos fidalgos o tambor e, igualmente,  outros fidalgos, uma pandeireta e uma viola, nas raras localidades onde estes instrumentos eram usados.

Em todas as festas e procissões, os fidalgos, divididos em dois grupos: o fala ou sonora, e o segundo contra baixo ou falsete ou tipi, não deixam de entoar seus cânticos próprios e característicos com versos por ele improvisados ou herdados de seus antepassados.

 Providências recentes do Episcopado proibiram a exibição das folias.

Cantavam assim o Credo:

 I     

Todos devemos estar firmes

Crentes em nossa fé

O que vemos e não vemos

Devemos crer que assim é.

 V   

É um Deus que tanto pode

E o seu poder é tanto

Que se veio fazer homem

Por obra do Espírito Santo

 IX

Perseguido dos judeus

Que foram falsos à fé,

Não teve pai enquanto Deus

Mas teve mãe que o mesmo é

XIII

A sua Luz foi aviso   

Que a todos alumiou,

Abrindo-se o Paraíso  

Para quem tanto o esperou

XVII

Remissão dos pecados

Deixou-a Deus na nossa mão,

Para sermos perdoados

Por meio da confissão 

XXI

Já depois da comunhão,

Um tão alto sacrifício,

Recebamos com atenção

Um tão alto benefício

  II 

Palavras de Deus escritas

Quem as aprendeu as sabe

São três pessoas divinas

As da Santíssima Trindade

VI

Tomou a humanidade

O que não foi de varão

Tudo por sua vontade

Para a nossa salvação

 X   

Nosso Senhor nos mostrou

Sinais da sua paixão, 

Foram tantos e tais

Que não têm comparação

 XIV     

Há uma Igreja católica,

Da congregação se trata, 

A cabeça desta paróquia 

É o pontífice – o Papa

 XVIII

É bem feita a confissão,

Havendo arrependimento,

Acusando-se o pecado

E confessando-o a tempo

 XXII

Ressurreição da carne, 

Depois de todos os mortos, 

É certo e é verdade. 

Que tornam as almas aos corpos

  III

Estas são certas e boas

E advertidas na terra

São três pessoas distintas

Que um só Deus encerra

VII  

Sua mãe, Nossa Senhora

Concebeu e gerou,

A seus peitos o criou,

E sempre Virgem ficou

XI

Morreu verdadeiramente.

Como isto é verdade,

Corpo e alma presente

Junto com a Divindade.

XV

Outros mais altos mistérios

Se contêm nesta doutrina,

Deixou-os Deus sem remédio

E na Igreja a Medicina

XIX

Quem houver de comungar

Deve de estar em jejum,

Para bem receber  

O nosso bom Jesus.

XXIII

 Há uma vida eterna

Lá no dia do Juízo

Os maus irão ao inferno

Os bons para o Paraíso

 IV

Pois a segunda pessoa 

Chama-se Verbo Divino

A quem devemos amar

A toda a hora e contínuo

VIII 

Milagre tão espantoso

Que deste mistério sai

Sendo Deus tão poderoso

Como homem, não teve pai

XII

Tornou a ressuscitar

 Da sexta para domingo,

E logo, no mesmo instante

Tirou as almas do Limbo.

XVI 

A comunicação dos santos

E dos Bem-Aventurados,

Seus merecimentos são tantos

Que são nossos advogados

 XX   

Salvo se alguém se achar

Numa doença tão grave,  

Que haja de comungar, 

Em caso de necessidade

 

 

 

 

 

Cantavam assim, o Bendito e Louvado:

 I 

Bendita e louvada seja

A conceição de Maria

Que dos anjos é senhora

E dos homens é guia

 V

Mais formosa sois que a lua,

Entre espinhos e girassol,

Enfim, excedes Senhora 

A candura do mesmo Sol

 II  

Vós, sendo filha de Adão

Sois da culpa reservada

Porque na mente divina

Sois pura e imaculada

 VI

Se lá nesse Paraíso

Aquela Eva pecou

Esteve sempre pura

Da culpa o mundo livrou

 III

Sois a açucena mais pura

Que Deus no Jardim criou

Por serdes um feliz sacrário

Onde o Verbo encarnou

VII  

Na terra lírio plantado

Entre espinhos e flores

Lembrai-vos dos vossos filhos

Sois mãe dos pecadores

 IV 

Vós sois mãe do Rei primeiro

Criadora universal, 

Que vos criou o Eterno

De sem culpa original

 VIII

Mãe de Deus, advogada

Por nós sempre intercedei

Para que, na vossa graça

Mereçamos a glória – Ámen

 

Só os fidalgos são inamovíveis e compete-lhes escolher anualmente, entre as famílias “limpas” do lugar, os demais componentes da folia.

Todos os domingos e dias santificados, da Ressurreição ao Pentecostes, a curiosa instituição vai a casa do rei, que se incorpora com a varinha e um dos fidalgos com o tambor, assiste à missa, percorre, com todas as insígnias, as ruas por onde é de uso passarem as procissões, vai deixar na Igreja a bandeira, a coroa e as lanternas, e segue para o jantar (refeição do meio dia), que se sucede, em cada um dos domingos, em casa do rei, alferes, pajem e mordomos.

Os jantares têm pratos obrigatórios: as sopas, arroz, ensopado, prato desconhecido (contém iguaria que vem para a mesa escondida) e arroz doce.

No final é oferecido a cada um dos convivas um ramalhete de flores.

No começo do jantar, antes das sopas, os fidalgos cantam:

  I

Somos convidados

E chegados a comer

Quem nos convidou

Deixe-o Deus viver

 II

Bendito e louvado seja

O Divino Sacramento

Que é doce maná dos anjos

Das almas, feliz sustento

 III 

Este divino maná 

Quem o receber dignamente

Terá por certo viver

No céu eternamente

 IV

Descei pombinha sagrada

Desse luzeiro divino

Vinde buscar nossas almas

Sem vós não têm alívio

Após o ensopado, também de pé, cantam o Testamento do Senhor:

I  

No alto monte Calvário 

Estava Cristo à morte,  

Numa cama tão estreita

Que nela volver-se não pode

 II  

Cristo para caber nela

 Um pé sobre o outro tinha 

Quis fazer o testamento

Para repartir o que havia

 III

A S. Pedro deixou as chaves

Que o Paraíso governe

A S. Miguel as balanças

 Que todas as almas pese

 IV

A S. Francisco as chagas

Que Deus lhe deu primeiro

Para lhe mostrar o sangue

De  Jesus Cristo Verdadeiro

Ao arroz-doce, cantavam:

 I

Caminhava a Virgem pura

Pelas montanhas, de inverno,

Caminhava para Belém

Pejada do Padre Eterno

 IV 

Semeou-se o pão divino

Nas entranhas da senhora,

Nasceu uma tal espiga

Que sustenta a gente toda

II

S. José vai agastado

 Em se ver pelas montanhas,

A Virgem vai mui alegre

Leva Jesus nas entranhas

 V  

 Esta espiga nasceu

Numa noite de Natal 

Junto à meia noite 

Antes do galo cantar  

 III

Calai-vos José, bom velho

Calai-vos José, meu bem.

Que uma noite passageira,

 Onde quer a passarei.

 VI

O galo quando cantou,

Cantou com muita alegria

Cantem anjos e arcanjos,

Bendita seja Maria.

Ao prato desconhecido, procurando em quadras improvisadas adivinhar o conteúdo, cantavam:

Vivam a nossa mordoma

E sua família em geral

Traz-nos uma adivinha

Que é do reino vegetal

                                   

                                                                       

                                                                       

                                                                       

 

Ao receberem o ramalhete de flores, cantam versos alusivos à dona da casa e a cada um dos confrades da folia:

 I   

Viva a nossa mordoma

Com todos os seus primores

Que nos quis convidar

Com um ramalhete de flores

 V 

Viva o nosso tesoureiro

Mui nobre e honrado

Viva muitos anos, viva,

Para que seja bem logrado

 II  

Ora viva, viva e viva

Esta nossa companhia

Que assim o manda Deus

Jesus e Santa Maria

VI

Vivam os nossos mordomos

Mui nobres e honrados,

Vivam muitos anos, vivam,

Para que sejam bem logrados

 III

Viva o nosso alferes

De amores tocado

Era um lírio roxo

Que estava granado

VII

Padre, Filho e Espírito Santo

Três pessoas e um só Deus

Senhor Rei, dê-nos licença

Que dêmos graças a Deus

I V

Viva o nosso pajem

De amores querido

Era um lírio roxo

Que estava florido

 

 

 

 

 

E rezam:

Terminado o jantar, dão nova volta à povoação e acompanham o rei a sua casa, onde deixam a varinha e o tambor.

A Folia sai, pela primeira vez, no domingo da Ressurreição, a última no domingo de Pentecostes (Espírito Santo), e em dia do Corpo de Deus para proclamar os confrades de escolha anual, toma parte em todas as festas locais e assiste a todas as romarias que se realizam no termo da freguesia ou vizinhanças.

O alferes percorre, com a bandeira, todas as ruas da povoação, no dia do Corpo de Deus. O povo aguarda-o pelas janelas e portas, para beijar o símbolo do Espírito Santo.

A Folia depõe neste mesmo dia a bandeira e as lanternas na Igreja e vai a casa de cada um dos novos eleitos fazer entrega dos distintivos: a varinha e o tambor ao rei,  a banda onde se apoia a bandeira ao alferes e a coroa ao pagem.

      Alvíssaras

Continuando a minha busca no tocante a festas tradicionais de vale de Lobo, as “Alvíssaras” era uma delas, que tinha lugar na Páscoa, e para a descrever, mais uma vez me socorro da obra do Dr. Jaime Lopes Dias intitulada “Etnografia da Beira” página 145 do Volume I de 1944, onde podemos ler o seguinte:

Numas localidades em sábado da Aleluia, noutras na noite de sábado de Aleluia para domingo da Ressurreição, grupos de raparigas cantam, à porta do pároco e à porta da Igreja, versos alusivos à Ressurreição. É o que chamam “cantar” ou dar “alvíssaras.

Nas povoações onde cantam à porta do pároco, este distribui pelos grupos, amêndoas, passas ou tremoços.

Vão em seguida as quadras que recolhi em Vale de Lobo:

 I 

Desde a porta da Igreja

Até ao Divino Sacrário

Vimos dar as boas festas

Ai nosso senhor vigário

 IV

Levantei-me um dia cedo

A varrer o pó da rua 

Vinham os anjos cantando

Aleluia! Aleluia! 

VII 

Levante-se senhor vigário

Levante-se, não durma tanto, 

Venha dar as boas festas

Ao divino Espírito Santo

X   

Já os passarinhos cantam

Na amoreirinha do aidro

Vêm cantar as alvíssaras 

À Senhora do Rosário

 XIII

A Senhora do Rosário

Tem uma fita no punho

Que lha puseram os anjos

No dia vinte e cinco de Junho

 XVI

Quem quiser ouvir cantar 

Vá-se por à porta travessa

Ouvirá cantar os anjos

A Virgem é que começa  

 II

Dai-nos as alvíssaras Senhora

Que nós vo-las vimos pedir

O vosso amado filho

Já tornou a ressurgir

  V   

 Levantei-me de madrugada

A varrer o pó da rua

Os anjos iam cantando

Aleluia! Aleluia!

VIII 

 Levante-se senhor vigário

  Que já dá o sol no sino

Venha dar as boas festas

Ao santo Verbo Divino

    XI    

A Senhora do Rosário

Está virada para a porta

Só a ver se vê entrar

Alguma sua devota

 XIV     

A Senhora do Rosário

Tem uma fita na testa

 Que lha puseram os anjos

No dia da sua festa

XVII  

Quem quiser ouvir cantar

Vá-se por à porta principal 

Ouvirá cantar os anjos

À Virgem que está no altar

III

Já apareceu a Aleluia

Quem na achou? Quem na acharia?

Achou-a o senhor vigário

 Fechada na sacristia

VI

 Levantei-me de madrugada

A varrer o pó do chão

Os anjos iam cantando

A sagrada Ressurreição

IX

Levante-se senhor vigário

Ponha os pés na sala nova

Venha dar as boas festas

À Virgem Senhora da Póvoa

XII

A Senhora do Rosário

Tem os sapatinhos brancos

Para passear no aidro

Domingos e dias santos

XV

A Senhora do Rosário

Tem o seu rosário certo

Quem o rezar todo o ano

Achará o céu aberto

XVIII

Santíssimo Sacramento

Vinde ao meio da Igreja

Deitai-nos a vossa benção

Donde toda a gente veja.

Parodiando e fazendo alusão à abstinência de carne e à alimentação de peixe durante a quaresma, cantam:

Aleluia! Aleluia!   

Aleluia que já é festa

Quem tiver bacalhau

Bata com ele na testa.

 

Encomendar as almas

 Continuando a minha pesquisa sobre as tradições de Vale de Lobo, é mais uma vez o Dr. Jaime Lopes Dias que, através da sua “Etnografia da Beira”, Volume I, na página 152, em 1944, que nos diz:

 Em muitas localidades da Beira Baixa, costumam algumas mulheres, em determinadas noites da quaresma, subir ao campanário da Igreja ou aos sítios mais elevados das povoações, a encomendar as almas ou a cantar, em toada própria, muito triste, versos como os que se seguem:

I 

As almas do purgatório

Já gritam em altas vozes

Com as mãos postas ao céu:

Irmãos, lembrai-vos de nós 

V

Lá em cima, ao calvário

Está a cama e o cobertor,

Onde a Virgem chora as penas

Do seu Filho Redentor

  IX

Eu vos peço irmãos meus

Filhos de S. José

Rezemos um Padre Nosso

Às almas que estão em pé

 II 

Irmãos, lembrai-vos de nós,

Da nossa miséria tanta

Estamos no Purgatório

E a chama nos alevanta 

VI

 Lá em cima, ao calvário

 Está um craveiro à cruz

A água com que o regam

É o sangue de Jesus

 X

Eu vos peço irmãos meus

Aqui neste auditório

Rezemos um Padre Nosso

Pelas almas do purgatório

III

Quando derdes a esmola

Vêde bem como a dais

Tendes no outro mundo

Vossas mães e vossos pais

 VII

Ó almas se tendes sede 

Vinde ao calvário beber

Que o meu Deus tem cinco fontes

Todas cinco a correr

 

 

 

 

 

 IV 

Lá em cima, ao calvário

Está cama e travesseiro

Onde a Virgem chora as penas

Do seu Filho verdadeiro

VIII  

Eu vos peço irmãos meus

Filhos de Jesus Cristo

Rezemos um Padre Nosso

 Às cincos chagas de Cristo

 

 

 

 

 

                                                                                                    Natal

Continuando a folhear a “Etnografia da Beira” do Dr. Jaime Lopes Dias, no Volume I, página 155, de 1944, podemos ler o seguinte:

Noite, geralmente fria, árvores descarnadas a erguerem os braços para o céu, campos desertos, caminhos sem viandantes, a não ser os que à última hora recolhem a pátrios lares, a véspera de Natal tem não sei quê de unção, de poesia, que a todos os cristãos ou livres pensadores, crentes ou ateus, faz reunir, vindo das maior distâncias, no conchego e convívio santo da família.

E o nosso povo, mantenedor fiel de velhas e lindas tradições, vai ainda hoje, para honra e louvor do Menino Jesus, e para que os pobrezinhos tenham onde se aquecer, colocar no adro da Igreja grandes troncos de árvores que arderão, e morrerão em vivo braseiro, durante todo o ciclo do Natal.

 Respeitando a velha tradição, muito pobrezinha há-de ser a casa que, na noite de Natal, não tenha na lareira abundante braseiro, e não faça filhós, bolos muito espalmados de massa de farinha e ovos fritos em azeite.

 Em Castelo Branco, como em grande número de povoações da Beira Baixa, são os rapazes que, aproveitando o primeiro carro de bois ou carroça de muares que se lhes depara na via pública, fazem o transporte dos madeiros.

 Em Vale de Lobo, o madeiro era trazido para o adro da Igreja pelos mancebos, isto é,  os rapazes que foram à inspecção militar nesse ano.

Como normalmente ninguém oferecia as árvores para o madeiro, os rapazes iam roubá-lo à Benquerença. Por sua vez, os da Benquerença vinham roubá-lo ao Vale de Lobo. Acabava por ser uma oferta obrigatória.

Na noite de Natal as famílias reúnem-se à volta da lareira a fazer as filhós. Depois, à meia noite, vão à missa do Galo.

Eis algumas quadras cantadas pelo Natal em Vale de Lobo:

Ó meu menino Jesus

Ó meu menino tão belo

Logo vieste a nascer

Na noite do caramelo 

 

Todos os filhos dos ricos

Têm belo travesseiro

Só Vós, Menino Jesus

Preso a esse madeiro

Entrai pastores entrai

Por esses portais adentro

Vinde adorar o Menino

No seu santo nascimento

 

Ó meu Menino Jesus

 Convosco é que eu estou bem

Nada deste mundo quero

Nada me parece bem

Alegrem-se os céus e a terra

Cantemos com alegria

Que já nasceu o Menino

Filho da Virgem Maria

 

 Entrai pastores entrai

Por esse portal sagrado

Vinde adorar o Menino

 Numas palhinhas deitado

 

    Matança do porco

Era, e ainda hoje (1996) se mantém a tradição de matarem o porco pela época do Natal. A carne era metida em arcas salgadeiras, para aí ser conservada. Hoje as arcas caíram em desuso, e utilizam arcas frigoríficas para o efeito. Pretendia-se que a carne desse para todo o ano. Fazem os enchidos, chouriças, farinheiras morcelas e presunto. Estes enchidos e presuntos são curados ao fumeiro. As casas, regra geral, não tinham lareiras nem tectos nas cozinhas. O fogo era feito no chão de pedra e o fumo saía livremente através do telhado. Para curarem os enchidos, penduravam-nos em paus de pinho, fazendo com eles um tecto na cozinha.

No dia da matança, comem normalmente o sarrabulho, ou seja, as partes do porco de menos interesse, (fígado, rins, coração e bofes) que não se conservam, guisados com batatas.

  

Compasso das almas

 Etnografia da Beira – Dr. Jaime Lopes Dias – Volume V – Página 80

 Em Vale de Lobo, quando tocava a vez do meio da missa dos domingos, excepto no terceiro em que havia procissão, fazia-se mas caiu em desuso o compasso do Santíssimo em volta da Igreja, pelas Almas do Purgatório. O pároco vestia capa de asperges. Tocava o sino com toque próprio. Chamava-se compasso por parar várias vezes (nove). Diziam nove responsos.

 

Folar

 Etnografia da Beira – Dr. Jaime Lopes Dias – Volume V – Página 184

Em grande número de povoações da Beira Baixa, ainda hoje os párocos percorrem em domingo  ou segunda-feira da Páscoa, todas as casas dos seus fregueses a dar as boas festas.

Os paroquianos, preparam as suas casas ou a melhor divisão para receber o Senhor, limpando-as, caiando-as, ou ornamentando-as, e colocam sobre a mesa onde será entronizado o crucifixo que acompanha o pároco, o seu afolar (folar), geralmente dinheiro envolto em pétalas de flores, ou ovos, queijos, e outros mimos das suas colheitas.

Os padrinhos dão nesta data o afolar aos seus afilhados.

Santoro

Em dia de Todos os Santos, o rapazio e os mendigos dos povos da Beira Baixa percorrem as casas a pedir o Santorinho. Também nesta data, os padrinhos dão o Santoro aos seus afilhados.

    Carreto

Nas freguesias do norte do concelho de Penamacor, os vizinhos que resolvem construir casa ou outra obra de vulto, promovem um ou mais carretos para condução dos materiais precisos.

O carreto consiste no auxílio que todos os lavradores com quem se dão, lhes prestam, gratuitamente, em dia determinado, com as suas juntas de bois para o referido transporte. Os promotores do carreto dão vinho em abundância, pão, queijo e azeitonas, e à noite, a ceia. Dia de carreto é dia grande na povoação, boa manifestação de solidariedade entre os vizinhos.

  Enterramentos – Funerais

Etnografia da Beira – Dr. Jaime Lopes Dias – Volume VIII, página 138

É corrente na Beira Baixa designarem-se os inocentes que morrem, por anjos ou anjinhos. Se toca o sino e alguém pergunta:

-     Quem morreu?

Logo respondem:

-     Não ouves o toque?

-     É a anjo, porque o sino toca diferentemente para anjos e para pessoas grandes.

É curiosa a acta que transcrevo a seguir em que os termos e o costume estão oficialmente assinalados. Dela consta que o coveiro de Vale de Lobo, cobrava: pelo enterramento e sinais (toque) do sino, de um anjo, cem réis, e de pessoa grande, duzentos réis, com a obrigação de enterrar gratuitamente qualquer pessoa pobre ou considerada como tal.

A Junta de Freguesia reputava, ao tempo, indispensável que cada sepultura devia medir sete palmos de fundura e a de um anjo pelo menos cinco palmos.

  Junta da Parochia de Vale de Lobo

Sessão extraordinária, em 16 de Setembro de 1866

Aos dezasseis dias do mez de Setembro de mil oitocentos e sessenta e seis, na sacristia da Igreja Matriz desta povoação, onde se achavam reunidos o Presidente, Vogais da Junta de parochia e Regedor, ahi deliberarão que era de muita utilidade, e bem para o público, que se nomeasse e convencionasse com quem se prontificasse a enterrar os cadáveres humanos que fallecessem na freguesia, e comparecendo neste acto Gregório Antunes, casado, forneiro, obrigou-se e comprometheo-se a ser coveiro, com o qual a Junta de Parochia convencionou  pagar-lhe por hum anjo cem réis; e por uma pessoa grande duzentos réis; ficando também obrigado a enterrar gratuitamente, e sem direito a paga de qualquer maneira, toda e qualquer pessoa pobre e considerada como tal; tendo em fim de seu dever obrigação, de fazer os primeiros signais  no sino tanto que falleça qualquer pessoa grande ou pequena; assim como na ocasião do enterro, e enquanto se caminhar para o Semitério fazer no sino os toques, ou sinais costumados; ao que tudo se obrigou e vai assignar no fim desta acta, que se lavra para contar, e firmeza do referido.

Declara-se em tempo, que por esta convensão fica o dito coveiro Gregório Antunes privado de exigir outra qualquer paga dos enteressados, ou famílias do fallecido e de tudo se mandou lavrar a presente acta que depois de lida vai ser assignada...

Fez-se siente nesta acta ao supradito coveiro Gregório Antunes, que cada huma sepultura para pessoa grande, deverá ter sempre sette palmos de fundura; e de hum anjo deverá ter pelo menos cinco palmos, ao que tudo se comprometheo.

E de tudo mandarão lavrar a presente acta que depois de lida vai ser assignada por todos.

Eu, João da Silva Fonseca, secretário que a subescrevi.

O Presidente - João Pires da Cunha; O Vogal - Ignácio Mendes; O Vogal - Alexandre da Silva Campos; O Secretário - João da Silva Fonseca; O Coveiro - Gregório Antunes (*); Testemunhas - José Gonçalves (*), Leomaro (*), Joaquim (*) , José dos Passos

  (*) – assinaram de cruz por não saberem escrever.

 

Em Vale de Lobo, os moradores da povoação e pessoas amigas da família anojada, acompanhados do pároco da freguesia, vão nos três domingos imediatos ao falecimento, à porta da casa do defunto fazer o acompanhamento e rezar Pai Nossos por ele e por pessoas falecidas da mesma família.

Também nos noves dias seguintes ao do funeral, vizinhos e amigos fazem em casa do defunto uma novena, rezando o terço.

Durante a permanência à porta, um dos mais velhos de entre os presentes pede Pai Nossos por alma do falecido, pelas almas do purgatório e por outras intenções.

O último pedido é dedicado aos que estão presentes. Finalmente acrescenta:

De glória sirva a todos.

Formas de tratamento

As pessoas de Vale da Senhora da Póvoa (Vale de Lobo) são por natureza hospitaleiras, humildes, caridosas e respeitadoras, mas também são capazes de tomar atitudes drásticas quando se vêem alvo de injustiças ou ofensas. Assim era nos anos 50 do século XX.

Os filhos falam respeitosamente aos pais e expressam-se assim: - Nã senhor!   -  Nã senhora!   - Vossemecê!

Também guardam uma certa atenção aos irmãos mais velhos, sobretudo à rapariga mais velha pois, é por assim dizer, uma segunda mãe, visto que enquanto esta "anda a tratar da vida" ela encarrega-se quase permanentemente da criança de colo.

Os pais tratam os filhos pelos nomes próprios mas se, a conversar com vizinhos ou outras pessoas, referem-se a eles dizendo: "  a nossa Jaquina",  " O nosso Tó", etc.

Também assim se expressam os irmãos entre si ou para outrem.

Os cônjuges entre si tratam-se pelo nome próprio ou por "Homem" ou "Mulher". Quando em conversas com outrem, dizem: " O mê homem", "O mê Antonho", "A minha Maria", "A minha patroa" , ou simplesmente "A minha"

Os sogros são tratados por "Pai" e "Mãe" e ao fazerem referência a eles é por "Mê sogro ou minha sogra", assim como estes também dizem "o mê genro e a minha nora).

Os padrastos e madrastas são tratados por "Padrinhos ou Madrinhas" e estes tratam os enteados pelo nome próprio.

Entre estranhos é por "vizinho ou vizinha"  se moram perto e "não andam a mal"  e ainda por "Ti" (Ti Jaquim, Ti Manel; Ti Maria), e "Senhor ou Senhora", "Vossemecê" ou "Vossa Excelência" se a pessoa a que se dirigem é tida ou tomada em categoria social muito elevada.

Ainda há bem poucos anos o termo "você" não era usado e era até quase ofensivo. Quando o marido estava a ralhar com a mulher é que a tratava por "você" ou vice-versa. Quando a mãe estava a ralhar com a filha tratava-a também por "você", etc.

Formas de saudação

Em Vale da Senhora da Póvoa (Vale de Lobo) "dar a saudação" é quase um mandamento divino. No entanto o termo mais usado é "a salvação" e não "saudação". Diz-se mesmo que a "salvação" não se nega a ninguém.

As expressões mais correntes são: "Vá com Deus", "Venha com Deus". De manhã e à noite as crianças costumavam "pôr as mãos" e pedir a bênção às pessoas mais respeitadas, tais como padrinhos, avós, pais, etc.

Tiravam o chapéu para cumprimentarem alguém de nível social superior.

Formas de agradecimento

As expressões mais comuns são o portuguesíssimo "Bem-Haja", "Muito agradecido", "Seja por alma de quem lá tem", "Seja por môr das benditas almas", "Seja por môr das suas obrigações" (obrigações significa almas por quem são obrigados a rezar para cumprir a obrigação de cristão)

                                                                                Jogos tradicionais

Em Vale de Lobo, que passou a designar-se por Vale da Senhora da Póvoa em 1958, as crianças divertiam-se a jogar alguns jogos característicos desta região, tais como:

1   PAU BILHAU

Uma fenda feita no chão onde se colocava um pauzinho com cerca de 10 cms. transversalmente;

Com outro pau maior, talvez com meio metro, metia-se por baixo, atirava-se ao ar e com o maior dava-se no pequeno para ir o mais longe possível;  o 2º jogador fazia o mesmo e se o seu  pau menor ficasse ao alcance da medida de uma mão (palmo), ganhava o jogo;
 
2   BOTÕES

Arrancávamos botões de roupas já não usadas e jogava-se assim:

O 1º jogador atirava o botão contra uma parede; o 2º jogador fazia o mesmo e se o seu botão ficasse ao alcance de uma mão aberta (palmo), ganhava esse botão.
 
3   BERLINDES

Fazia-se 3 poças (ou buraquinhos) no chão, de modo a fazer um triângulo. O 1º jogador tinha de atirar o berlinde ou esfera (se fosse berlinde de ferro) para a poça do vértice do triângulo; se não entrasse, o berlinde ficava onde caiu; se entrasse, tinha de jogar o berlinde todas as outras 2 poças, se conseguisse meter, tentava atingir o berlinde do outro jogador; se o atingisse ganhava esse berlinde ou outro dado pelo adversário; se não atingisse, o outro jogador fazia todo o mesmo processo.
 
4  JOGO DO CAIXOTE

Virava-se um caixote ao contrário e colocava-se uma pedra debaixo até ficar um cabeçote; fazia-se um risco ao meio do caixote; com moedas de 1 escudo (ou moeda de cobre de 100 reis), os jogadores, colocados à distancia de 2 metros, atiravam a moeda; se ficava fora do risco, zero tentos; se ficava sobre o risco ganhava 2 tentos; se se avisava antecipadamente ia tentar pôr a moeda sobre o risco  e dizia: "TRUCO 6 tentos" e ganhava esses 6 tentos, se conseguisse. Jogava-se com equipas de 2 e quem perdia pagava uma rodada aos ganhadores.

5 JOGO DO PIÃO

Fazia-se um circulo no chão e jogava-se o pião lá dentro; quando o pião parava de rodar se  ficasse parado dentro do círculo, os outros jogadores jogavam os seus piões tentando tirar o pião caído. Às vezes acontecia o pião rachar ou mesmo partir-se.
 

(José Jorge Cameira)

 

 
 

Américo Valente - Pesquisas

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