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I Todos devemos estar firmes Crentes em nossa fé O que vemos e não vemos Devemos crer que assim é. V É um Deus que tanto pode E o seu poder é tanto Que se veio fazer homem Por obra do Espírito Santo
IX
Perseguido dos judeus
Que foram falsos à fé,
Não teve pai enquanto Deus
Mas teve mãe que o mesmo é XIII A sua Luz foi aviso Que a todos alumiou, Abrindo-se o Paraíso Para quem tanto o esperou
Remissão dos pecados Deixou-a Deus na nossa mão, Para sermos perdoados Por meio da confissão
XXI
Já depois da comunhão,
Um tão alto sacrifício,
Recebamos com atenção
Um tão alto benefício |
II Palavras de Deus escritas Quem as aprendeu as sabe São três pessoas divinas As da Santíssima Trindade
VI
Tomou a humanidade O que não foi de varão
Tudo por sua vontade Para a nossa salvação X Nosso Senhor nos mostrou Sinais da sua paixão, Foram tantos e tais Que não têm comparação XIV Há uma Igreja católica, Da congregação se trata, A cabeça desta paróquia É o pontífice – o Papa
É bem feita a confissão,
Havendo arrependimento,
Acusando-se o pecado
E confessando-o a tempo XXII Ressurreição da carne, Depois de todos os mortos, É certo e é verdade. Que tornam as almas aos corpos |
III
Estas são certas e boas E advertidas na terra
São três pessoas distintas Que um só Deus encerra VII Sua mãe, Nossa Senhora Concebeu e gerou, A seus peitos o criou, E sempre Virgem ficou XI Morreu verdadeiramente. Como isto é verdade, Corpo e alma presente Junto com a Divindade.
XV
Outros mais altos mistérios
Se contêm nesta doutrina,
Deixou-os Deus sem remédio
E na Igreja a Medicina XIX Quem houver de comungar Deve de estar em jejum, Para bem receber O nosso bom Jesus.
XXIII Há uma vida eterna Lá no dia do Juízo Os maus irão ao inferno Os bons para o Paraíso |
IV Pois a segunda pessoa Chama-se Verbo Divino A quem devemos amar A toda a hora e contínuo VIII Milagre tão espantoso Que deste mistério sai Sendo Deus tão poderoso Como homem, não teve pai
XII
Tornou a ressuscitar
Da sexta para domingo,
E logo, no mesmo instante
Tirou as almas do Limbo.
A comunicação dos santos E dos Bem-Aventurados, Seus merecimentos são tantos Que são nossos advogados XX Salvo se alguém se achar Numa doença tão grave, Que haja de comungar, Em caso de necessidade
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Cantavam assim, o Bendito e Louvado:
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I Bendita e louvada seja A conceição de Maria Que dos anjos é senhora E dos homens é guia V Mais formosa sois que a lua, Entre espinhos e girassol, Enfim, excedes Senhora A candura do mesmo Sol |
II Vós, sendo filha de Adão Sois da culpa reservada Porque na mente divina Sois pura e imaculada
VI
Se lá nesse Paraíso
Aquela Eva pecou
Esteve sempre pura
Da culpa o mundo livrou |
III
Sois a açucena mais pura
Que Deus no Jardim criou
Por serdes um feliz sacrário
Onde o Verbo encarnou VII Na terra lírio plantado Entre espinhos e flores Lembrai-vos dos vossos filhos Sois mãe dos pecadores |
IV Vós sois mãe do Rei primeiro Criadora universal, Que vos criou o Eterno De sem culpa original VIII Mãe de Deus, advogada Por nós sempre intercedei Para que, na vossa graça Mereçamos a glória – Ámen |
Só os fidalgos são
inamovíveis e compete-lhes escolher anualmente, entre as famílias “limpas”
do lugar, os demais componentes da folia.
Todos
os domingos e dias santificados, da Ressurreição ao Pentecostes, a curiosa
instituição vai a casa do rei, que se incorpora com a varinha e um dos
fidalgos com o tambor, assiste à missa, percorre, com todas as insígnias, as
ruas por onde é de uso passarem as procissões, vai deixar na Igreja a
bandeira, a coroa e as lanternas, e segue para o jantar (refeição do meio
dia), que se sucede, em cada um dos domingos, em casa do rei, alferes, pajem e
mordomos.
Os
jantares têm pratos obrigatórios: as sopas, arroz, ensopado, prato
desconhecido (contém iguaria que vem para a mesa escondida) e arroz doce.
No
final é oferecido a cada um dos convivas um ramalhete de flores.
No
começo do jantar, antes das sopas, os fidalgos cantam:
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I Somos convidados E chegados a comer Quem nos convidou Deixe-o Deus viver |
II Bendito e louvado seja O Divino Sacramento Que é doce maná dos anjos Das almas, feliz sustento |
III Este divino maná Quem o receber dignamente Terá por certo viver No céu eternamente |
IV Descei pombinha sagrada Desse luzeiro divino Vinde buscar nossas almas Sem vós não têm alívio |
Após o ensopado, também de pé, cantam o Testamento do
Senhor:
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I No alto monte Calvário Estava Cristo à morte, Numa cama tão estreita Que nela volver-se não pode |
II Cristo para caber nela Um pé sobre o outro tinha Quis fazer o testamento Para repartir o que havia |
III
A S. Pedro deixou as chaves
Que o Paraíso governe
A S. Miguel as balanças
Que todas as almas pese |
IV A S. Francisco as chagas Que Deus lhe deu
primeiro Para lhe mostrar o sangue De Jesus
Cristo Verdadeiro |
Ao
arroz-doce, cantavam:
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I Caminhava a Virgem pura Pelas montanhas, de inverno, Caminhava para Belém Pejada do Padre Eterno IV Semeou-se o pão divino Nas entranhas da senhora, Nasceu uma tal espiga Que sustenta a gente toda |
II S. José vai agastado Em se ver pelas montanhas, A Virgem vai mui alegre Leva Jesus nas entranhas V Esta espiga nasceu Numa noite de Natal Junto à meia noite Antes do galo cantar |
III
Calai-vos José, bom velho
Calai-vos José, meu bem. Que uma noite passageira,
VI
O galo quando cantou, Cantou com muita alegria
Cantem anjos e arcanjos,
Bendita seja Maria. |
Ao
prato desconhecido, procurando em quadras improvisadas adivinhar o conteúdo,
cantavam:
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Vivam a nossa mordoma
E sua família em geral Traz-nos uma adivinha Que é do reino vegetal |
Ao
receberem o ramalhete de flores, cantam versos alusivos à dona da casa e a cada
um dos confrades da folia:
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I Viva a nossa mordoma Com todos os seus primores Que nos quis convidar Com um ramalhete de flores V Viva o nosso tesoureiro Mui nobre e honrado Viva muitos anos, viva, Para que seja bem logrado |
II Ora viva, viva e viva Esta nossa companhia Que assim o manda Deus Jesus e Santa Maria
VI
Vivam os nossos mordomos
Mui nobres e honrados, Vivam muitos anos, vivam, Para que sejam bem logrados |
III
Viva o nosso alferes
De amores tocado
Era um lírio roxo
Que estava granado
VII
Padre, Filho e Espírito Santo
Três pessoas e um só Deus
Senhor Rei, dê-nos licença
Que dêmos graças a Deus |
I V Viva o nosso pajem De amores querido Era um lírio roxo Que estava florido
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E rezam:
Terminado
o jantar, dão nova volta à povoação e acompanham o rei a sua casa, onde
deixam a varinha e o tambor
A Folia sai, pela primeira vez, no
domingo da Ressurreição, a última no domingo de Pentecostes (Espírito Santo), e
em dia do Corpo de Deus para proclamar os confrades de escolha anual, toma parte
em todas as festas locais e assiste a todas as romarias que se realizam no termo
da freguesia ou vizinhanças.
O
alferes percorre, com a bandeira, todas as ruas da povoação, no dia do Corpo
de Deus. O povo aguarda-o pelas janelas e portas, para beijar o símbolo do Espírito
Santo.
A
Folia depõe neste mesmo dia a bandeira e as lanternas na Igreja e vai a casa de
cada um dos novos eleitos fazer entrega dos distintivos: a varinha e o tambor ao
rei, a banda onde se apoia a
bandeira ao alferes e a coroa ao pagem.
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Continuando
a minha busca no tocante a festas tradicionais de vale de Lobo, as “Alvíssaras”
era uma delas, que tinha lugar na Páscoa, e para a descrever, mais uma vez me
socorro da obra do Dr. Jaime Lopes Dias intitulada “Etnografia da Beira” página
145 do Volume I de 1944, onde podemos ler o seguinte:
Numas
localidades em sábado da Aleluia, noutras na noite de sábado de Aleluia para
domingo da Ressurreição, grupos de raparigas cantam, à porta do pároco e à
porta da Igreja, versos alusivos à Ressurreição. É o que chamam “cantar”
ou dar “alvíssaras.
Nas
povoações onde cantam à porta do pároco, este distribui pelos grupos, amêndoas,
passas ou tremoços.
Vão
em seguida as quadras que recolhi em Vale de Lobo:
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I Desde a porta da Igreja Até ao Divino Sacrário Vimos dar as boas festas Ai nosso senhor vigário IV Levantei-me um dia cedo A varrer o pó da rua Vinham os anjos cantando Aleluia! Aleluia! VII Levante-se senhor vigário Levante-se, não durma tanto, Venha dar as boas festas Ao divino Espírito Santo X Já os passarinhos cantam Na amoreirinha do aidro Vêm cantar as alvíssaras À Senhora do Rosário XIII A Senhora do Rosário Tem uma fita no punho Que lha puseram os anjos No dia vinte e cinco de Junho XVI Quem quiser ouvir cantar Vá-se por à porta travessa Ouvirá cantar os anjos A Virgem é que começa |
II Dai-nos as alvíssaras Senhora Que nós vo-las vimos pedir O vosso amado filho Já tornou a ressurgir V Levantei-me de madrugada A varrer o pó da rua Os anjos iam cantando Aleluia! Aleluia! VIII Levante-se senhor vigário Que já dá o sol no sino Venha dar as boas festas Ao santo Verbo Divino XI A Senhora do Rosário Está virada para a porta Só a ver se vê entrar Alguma sua devota XIV A Senhora do Rosário Tem uma fita na testa Que lha puseram os anjos No dia da sua festa XVII Quem quiser ouvir cantar Vá-se por à porta principal Ouvirá cantar os anjos À Virgem que está no altar |
III
Já apareceu a Aleluia
Quem na achou? Quem na acharia?
Achou-a o senhor vigário
Fechada na sacristia
VI
Levantei-me de madrugada
A varrer o pó do chão
Os anjos iam cantando
A sagrada Ressurreição
IX
Levante-se senhor vigário
Ponha os pés na sala nova
Venha dar as boas festas
À Virgem Senhora da Póvoa
XII
A Senhora do Rosário
Tem os sapatinhos brancos
Para passear no aidro Domingos e dias santos
XV A Senhora do Rosário Tem o seu rosário certo Quem o rezar todo o ano
Achará o céu aberto
XVIII Santíssimo Sacramento Vinde ao meio da Igreja
Deitai-nos a vossa benção
Donde toda a gente veja. |
Parodiando
e fazendo alusão à abstinência de carne e à alimentação de peixe durante a
quaresma, cantam:
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Aleluia! Aleluia!
Aleluia que já é festa
Quem tiver bacalhau
Bata com ele na testa. |
Continuando
a minha pesquisa sobre as tradições de Vale de Lobo, é mais uma vez o Dr.
Jaime Lopes Dias que, através da sua “Etnografia da Beira”, Volume I, na página
152, em 1944, que nos diz:
Em
muitas localidades da Beira Baixa, costumam algumas mulheres, em determinadas
noites da quaresma, subir ao campanário da Igreja ou aos sítios mais elevados
das povoações, a encomendar as almas ou a cantar, em toada própria, muito
triste, versos como os que se seguem:
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I As almas do purgatório Já gritam em altas vozes Com as mãos postas ao céu: Irmãos, lembrai-vos de nós V Lá em cima, ao calvário Está a cama e o cobertor, Onde a Virgem chora as penas Do seu Filho Redentor
IX Eu vos peço irmãos meus
Filhos de S. José
Rezemos um Padre Nosso
Às almas que estão em pé |
II Irmãos, lembrai-vos de nós, Da nossa miséria tanta Estamos no Purgatório E a chama nos alevanta
VI
Lá em cima, ao calvário
Está um craveiro à cruz
A água com que o regam
É o sangue de Jesus
X
Eu vos peço
irmãos meus
Aqui neste
auditório
Rezemos um
Padre Nosso
Pelas almas
do purgatório |
III
Quando derdes a esmola
Vêde bem como a dais Tendes no outro mundo
Vossas mães e vossos pais VII Ó almas se tendes sede Vinde ao calvário beber Que o meu Deus tem cinco fontes Todas cinco a correr
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IV Lá em cima, ao calvário Está cama e travesseiro Onde a Virgem chora as penas Do seu Filho verdadeiro VIII Eu vos peço irmãos meus Filhos de Jesus Cristo Rezemos um Padre Nosso Às cincos chagas de Cristo
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Continuando
a folhear a “Etnografia da Beira” do Dr. Jaime Lopes Dias, no Volume I, página
155, de 1944, podemos ler o seguinte:
Noite,
geralmente fria, árvores descarnadas a erguerem os braços para o céu, campos
desertos, caminhos sem viandantes, a não ser os que à última hora recolhem a
pátrios lares, a véspera de Natal tem não sei quê de unção, de poesia, que
a todos os cristãos ou livres pensadores, crentes ou ateus, faz reunir, vindo
das maior distâncias, no conchego e convívio santo da família.
E
o nosso povo, mantenedor fiel de velhas e lindas tradições, vai ainda hoje,
para honra e louvor do Menino Jesus, e para que os pobrezinhos tenham onde se
aquecer, colocar no adro da Igreja grandes troncos de árvores que arderão, e
morrerão em vivo braseiro, durante todo o ciclo do Natal.
Respeitando
a velha tradição, muito pobrezinha há-de ser a casa que, na noite de Natal, não
tenha na lareira abundante braseiro, e não faça filhós, bolos muito
espalmados de massa de farinha e ovos fritos em azeite.
Em
Castelo Branco, como em grande número de povoações da Beira Baixa, são os
rapazes que, aproveitando o primeiro carro de bois ou carroça de muares que se
lhes depara na via pública, fazem o transporte dos madeiros.
Em
Vale de Lobo, o madeiro era trazido para o adro da Igreja pelos mancebos, isto
é, os rapazes que foram à inspecção
militar nesse ano.
Como
normalmente ninguém oferecia as árvores para o madeiro, os rapazes iam roubá-lo
à Benquerença. Por sua vez, os da Benquerença vinham roubá-lo ao Vale de
Lobo. Acabava por ser uma oferta obrigatória.
Na
noite de Natal as famílias reúnem-se à volta da lareira a fazer as filhós.
Depois, à meia noite, vão à missa do Galo.
Eis
algumas quadras cantadas pelo Natal em Vale de Lobo:
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Ó meu menino Jesus Ó meu menino tão belo Logo vieste a nascer Na noite do caramelo
Todos os filhos dos ricos Têm belo travesseiro Só Vós, Menino Jesus Preso a esse madeiro |
Entrai pastores entrai Por esses portais adentro Vinde adorar o Menino No seu santo nascimento
Ó meu Menino Jesus Convosco é que eu estou bem Nada deste mundo quero Nada me parece bem |
Alegrem-se os céus e a terra
Cantemos com alegria
Que já nasceu o Menino
Filho da Virgem Maria
Entrai pastores entrai
Por esse portal sagrado
Vinde adorar o Menino
Numas palhinhas deitado |
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Era,
e ainda hoje (1996) se mantém a tradição de matarem o porco pela época do
Natal. A carne era metida em arcas salgadeiras, para aí ser conservada. Hoje as
arcas caíram em desuso, e utilizam arcas frigoríficas para o efeito.
Pretendia-se que a carne desse para todo o ano. Fazem os enchidos, chouriças,
farinheiras morcelas e presunto. Estes enchidos e presuntos são curados ao
fumeiro. As casas, regra geral, não tinham lareiras nem tectos nas cozinhas. O
fogo era feito no chão de pedra e o fumo saía livremente através do telhado.
Para curarem os enchidos, penduravam-nos em paus de pinho, fazendo com eles um
tecto na cozinha.
No
dia da matança, comem normalmente o sarrabulho, ou seja, as partes do porco de
menos interesse, (fígado, rins, coração e bofes) que não se conservam,
guisados com batatas.
Etnografia
da Beira – Dr. Jaime Lopes Dias – Volume V – Página 80
Em
Vale de Lobo, quando tocava a vez do meio da missa dos domingos, excepto no
terceiro em que havia procissão, fazia-se mas caiu em desuso o compasso do Santíssimo
em volta da Igreja, pelas Almas do Purgatório. O pároco vestia capa de
asperges. Tocava o sino com toque próprio. Chamava-se compasso por parar várias
vezes (nove). Diziam nove responsos.
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Etnografia
da Beira – Dr. Jaime Lopes Dias – Volume V – Página 184
Em
grande número de povoações da Beira Baixa, ainda hoje os párocos percorrem
em domingo ou segunda-feira da Páscoa,
todas as casas dos seus fregueses a dar as boas festas.
Os
paroquianos, preparam as suas casas ou a melhor divisão para receber o Senhor,
limpando-as, caiando-as, ou ornamentando-as, e colocam sobre a mesa onde será
entronizado o crucifixo que acompanha o pároco, o seu afolar (folar),
geralmente dinheiro envolto em pétalas de flores, ou ovos, queijos, e outros
mimos das suas colheitas.
Os
padrinhos dão nesta data o afolar aos seus afilhados.
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Em
dia de Todos os Santos, o rapazio e os mendigos dos povos da Beira Baixa
percorrem as casas a pedir o Santorinho. Também nesta data, os padrinhos dão o
Santoro aos seus afilhados.
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Nas
freguesias do norte do concelho de Penamacor, os vizinhos que resolvem construir
casa ou outra obra de vulto, promovem um ou mais carretos para condução dos
materiais precisos.
O
carreto consiste no auxílio que todos os lavradores com quem se dão, lhes
prestam, gratuitamente, em dia determinado, com as suas juntas de bois para o
referido transporte. Os promotores do carreto dão vinho em abundância, pão,
queijo e azeitonas, e à noite, a ceia. Dia de carreto é dia grande na povoação,
boa manifestação de solidariedade entre os vizinhos.
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Etnografia da Beira – Dr. Jaime Lopes
Dias – Volume VIII, página 138
É corrente na Beira Baixa designarem-se os inocentes que
morrem, por anjos ou anjinhos. Se toca o sino e alguém pergunta:
- Quem morreu?
Logo
respondem:
- Não ouves o toque?
- É a anjo, porque o sino toca diferentemente para anjos e para
pessoas grandes.
É
curiosa a acta que transcrevo a seguir em que os termos e o costume estão
oficialmente assinalados. Dela consta que o coveiro de Vale de Lobo, cobrava:
pelo enterramento e sinais (toque) do sino, de um anjo, cem réis, e de pessoa
grande, duzentos réis, com a obrigação de enterrar gratuitamente qualquer
pessoa pobre ou considerada como tal.
A
Junta de Freguesia reputava, ao tempo, indispensável que cada sepultura devia
medir sete palmos de fundura e a de um anjo pelo menos cinco palmos.
Sessão
extraordinária, em 16 de Setembro de 1866
Aos
dezasseis dias do mez de Setembro de mil oitocentos e sessenta e seis, na
sacristia da Igreja Matriz desta povoação, onde se achavam reunidos o
Presidente, Vogais da Junta de parochia e Regedor, ahi deliberarão que era de
muita utilidade, e bem para o público, que se nomeasse e convencionasse com
quem se prontificasse a enterrar os cadáveres humanos que fallecessem na
freguesia, e comparecendo neste acto Gregório Antunes, casado, forneiro,
obrigou-se e comprometheo-se a ser coveiro, com o qual a Junta de Parochia
convencionou pagar-lhe por hum anjo
cem réis; e por uma pessoa grande duzentos réis; ficando também obrigado a
enterrar gratuitamente, e sem direito a paga de qualquer maneira, toda e
qualquer pessoa pobre e considerada como tal; tendo em fim de seu dever obrigação,
de fazer os primeiros signais no
sino tanto que falleça qualquer pessoa grande ou pequena; assim como na ocasião
do enterro, e enquanto se caminhar para o Semitério fazer no sino os toques, ou
sinais costumados; ao que tudo se obrigou e vai assignar no fim desta acta, que
se lavra para contar, e firmeza do referido.
Declara-se
em tempo, que por esta convensão fica o dito coveiro Gregório Antunes privado
de exigir outra qualquer paga dos enteressados, ou famílias do fallecido e de
tudo se mandou lavrar a presente acta que depois de lida vai ser assignada...
Fez-se
siente nesta acta ao supradito coveiro Gregório Antunes, que cada huma
sepultura para pessoa grande, deverá ter sempre sette palmos de fundura; e de
hum anjo deverá ter pelo menos cinco palmos, ao que tudo se comprometheo.
E
de tudo mandarão lavrar a presente acta que depois de lida vai ser assignada
por todos.
Eu,
João da Silva Fonseca, secretário que a subescrevi.
O
Presidente
Em
Vale de Lobo, os moradores da povoação e pessoas amigas da família anojada,
acompanhados do pároco da freguesia, vão nos três domingos imediatos ao
falecimento, à porta da casa do defunto fazer o acompanhamento e rezar Pai
Nossos por ele e por pessoas falecidas da mesma família.
Também
nos noves dias seguintes ao do funeral, vizinhos e amigos fazem em casa do
defunto uma novena, rezando o terço.
Durante
a permanência à porta, um dos mais velhos de entre os presentes pede Pai
Nossos por alma do falecido, pelas almas do purgatório e por outras intenções.
O
último pedido é dedicado aos que estão presentes. Finalmente acrescenta:
De
glória sirva a todos.
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As pessoas de Vale da Senhora da Póvoa (Vale de Lobo) são por natureza hospitaleiras, humildes, caridosas e respeitadoras, mas também são capazes de tomar atitudes drásticas quando se vêem alvo de injustiças ou ofensas. Assim era nos anos 50 do século XX.
Os filhos falam respeitosamente aos pais e expressam-se assim: - Nã senhor! - Nã senhora! - Vossemecê!
Também guardam uma certa atenção aos irmãos mais velhos, sobretudo à rapariga mais velha pois, é por assim dizer, uma segunda mãe, visto que enquanto esta "anda a tratar da vida" ela encarrega-se quase permanentemente da criança de colo.
Os pais tratam os filhos pelos nomes próprios mas se, a conversar com vizinhos ou outras pessoas, referem-se a eles dizendo: " a nossa Jaquina", " O nosso Tó", etc.
Também assim se expressam os irmãos entre si ou para outrem.
Os cônjuges entre si tratam-se pelo nome próprio ou por "Homem" ou "Mulher". Quando em conversas com outrem, dizem: " O mê homem", "O mê Antonho", "A minha Maria", "A minha patroa" , ou simplesmente "A minha"
Os sogros são tratados por "Pai" e "Mãe" e ao fazerem referência a eles é por "Mê sogro ou minha sogra", assim como estes também dizem "o mê genro e a minha nora).
Os padrastos e madrastas são tratados por "Padrinhos ou Madrinhas" e estes tratam os enteados pelo nome próprio.
Entre estranhos é por "vizinho ou vizinha" se moram perto e "não andam a mal" e ainda por "Ti" (Ti Jaquim, Ti Manel; Ti Maria), e "Senhor ou Senhora", "Vossemecê" ou "Vossa Excelência" se a pessoa a que se dirigem é tida ou tomada em categoria social muito elevada.
Ainda há bem poucos anos o termo "você" não era usado e era até quase ofensivo. Quando o marido estava a ralhar com a mulher é que a tratava por "você" ou vice-versa. Quando a mãe estava a ralhar com a filha tratava-a também por "você", etc.
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Em Vale da Senhora da Póvoa (Vale de Lobo) "dar a saudação" é quase um mandamento divino. No entanto o termo mais usado é "a salvação" e não "saudação". Diz-se mesmo que a "salvação" não se nega a ninguém.
As expressões mais correntes são: "Vá com Deus", "Venha com Deus". De manhã e à noite as crianças costumavam "pôr as mãos" e pedir a bênção às pessoas mais respeitadas, tais como padrinhos, avós, pais, etc.
Tiravam o chapéu para cumprimentarem alguém de nível social superior.
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As expressões mais comuns são o portuguesíssimo "Bem-Haja", "Muito agradecido", "Seja por alma de quem lá tem", "Seja por môr das benditas almas", "Seja por môr das suas obrigações" (obrigações significa almas por quem são obrigados a rezar para cumprir a obrigação de cristão)
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Em Vale de Lobo, que passou a designar-se por Vale da Senhora da Póvoa em 1958, as crianças divertiam-se a jogar alguns jogos característicos desta região, tais como:
1 PAU BILHAU
Uma fenda feita no chão onde se colocava um pauzinho com cerca de 10 cms. transversalmente;
Com outro pau maior, talvez com meio metro, metia-se por
baixo, atirava-se ao ar e com o maior dava-se no pequeno para ir o mais longe
possível; o 2º jogador fazia o mesmo e se o seu pau menor ficasse ao alcance
da medida de uma mão (palmo), ganhava o jogo;
2 BOTÕES
Arrancávamos botões de roupas já não usadas e jogava-se assim:
O 1º jogador atirava o botão contra uma parede; o 2º
jogador fazia o mesmo e se o seu botão ficasse ao alcance de uma mão aberta
(palmo), ganhava esse botão.
3 BERLINDES
Fazia-se 3 poças (ou buraquinhos) no chão, de modo a fazer
um triângulo. O 1º jogador tinha de atirar o berlinde ou esfera (se fosse
berlinde de ferro) para a poça do vértice do triângulo; se não entrasse, o
berlinde ficava onde caiu; se entrasse, tinha de jogar o berlinde todas as
outras 2 poças, se conseguisse meter, tentava atingir o berlinde do outro
jogador; se o atingisse ganhava esse berlinde ou outro dado pelo adversário; se
não atingisse, o outro jogador fazia todo o mesmo processo.
4 JOGO DO CAIXOTE
Virava-se um caixote ao contrário e colocava-se uma pedra debaixo até ficar um cabeçote; fazia-se um risco ao meio do caixote; com moedas de 1 escudo (ou moeda de cobre de 100 reis), os jogadores, colocados à distancia de 2 metros, atiravam a moeda; se ficava fora do risco, zero tentos; se ficava sobre o risco ganhava 2 tentos; se se avisava antecipadamente ia tentar pôr a moeda sobre o risco e dizia: "TRUCO 6 tentos" e ganhava esses 6 tentos, se conseguisse. Jogava-se com equipas de 2 e quem perdia pagava uma rodada aos ganhadores.
5 JOGO DO PIÃO
Fazia-se um circulo no chão e jogava-se o pião lá dentro;
quando o pião parava de rodar se ficasse parado dentro do círculo, os
outros jogadores jogavam os seus piões tentando tirar o pião caído. Às vezes
acontecia o pião rachar ou mesmo partir-se.
(José Jorge Cameira)
Américo Valente - Pesquisas